No fim de semana dos dias 6 e 7 de setembro, moradores e pescadores registraram uma grande mortandade de peixes no Rio Paraopeba, em trechos desde Vianópolis, próximo à foz do Rio Betim, até Esmeraldas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Segundo informações do jornal Estado de Minas, foram mais de quatro mil animais mortos contabilizados, entre eles espécies resistentes como piranha, pacamã e surubim — esta última ameaçada de extinção. A população ficou surpresa e alarmada, dada a quantidade de peixes mortos e ausência de mudanças visíveis de cor ou odor na água.
Em vídeo, o presidente do Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Paraopeba informa que foram coletadas amostras de carcaças, água e sedimentos para análise, mas que ainda não há um resultado laboratorial para que se possa falar de forma mais específica sobre as causas. Há uma suspeita de que possa ter ocorrido o despejo de produto químico na foz do Rio Betim, que deságua no Paraopeba.
Segundo Carlos Bernardo Mascarenhas, biólogo e pesquisador do Projeto Manuelzão, eventos de mortandade no rio não são inusitados e ocorrem rotineiramente todos os anos e são o exemplo real da inoperância das políticas públicas para conservação do meio ambiente: “O que chamou atenção, especificamente nesta ocorrência, foi o fato de ela ter ocorrido antes do período chuvoso, sem ter havido precipitação nos dias que a antecederam”, explica. As primeiras chuvas após um período de seca “lavam” descartes e poluentes acumulados, o que gera aumento de matéria orgânica e queda dos níveis de oxigênio dissolvido, matando os peixes.
A principal razão da recorrência é a poluição trazida pelo Rio Betim, que deságua no Paraopeba carregando esgotos domésticos não tratados de Betim e Contagem, efluentes industriais e resíduos, nem sempre dispostos de forma adequada. Carlos destaca que ainda há outros fatores de degradação, como rejeitos da mineração, atividades agropecuárias com uso inadequado de fertilizantes e agrotóxicos, desmatamento, etc.
O caso está sendo acompanhado pelo Comitê por órgãos como o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), o Instituto Estadual de Florestas (IEF) e pela Polícia Militar de Meio Ambiente. O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) protocolou na Semad um pedido de informação pública, solicitando acesso aos estudos e resultados de perícias relativos ao caso, assim como sobre as ações realizadas. O órgão tem até 10 de outubro para responder.
Carlos reforça a importância de que o poder público atue rapidamente para encontrar os motivos e punir responsáveis pelo episódio, mas principalmente, para prevenir outras ocorrências. “As prefeituras e concessionárias de saneamento devem se apressar para eliminar o passivo existente de décadas sem investimento no tratamento de esgotos, bem como a indústria se adequar a processos mais modernos e menos poluentes, prevenindo o descarte de substâncias tóxicas ou potencialmente poluidoras”.
Por mais que a situação seja grave e preocupante, essa grande mortandade também é um sinal do potencial para a revitalização da bacia hidrográfica do Rio Paraopeba após todo o estrago causado pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho. “Os peixes ainda resistem, mesmo com o tamanho descaso com a causa ambiental. É necessário, e urgente, sair do discurso para a prática, efetivando ações que possam reverter o quadro atual da bacia”, alerta Carlos Mascarenhas.
Mônica Campos, bióloga do Instituto Guaicuy, lembra que a grande parcela do volume de rejeitos que chegou até o Rio Paraopeba ainda se encontra depositada em sua calha, dada a morosidade com que se arrasta o processo da dragagem do rio. “Isso representa mais um importante fator de distúrbio ao ecossistema que não pode ser desconsiderado quando se trata de recuperação do rio e recomposição de sua biodiversidade”, reforça.
Imagem destacada: Reprodução internet
O que você achou deste conteúdo?