Entrevista publicada originalmente no Piracema 19.
Fernanda Martins é enfermeira, mãe orgulhosa de Kethlen Emanueli e apaixonada por animais. Ela e o pai, Geraldo Martins, fazem parte da Comissão Atingidos do Bagre.
Fernanda, conta para os leitores a sua história aqui no Ribeirão do Bagre?
Fernanda: Eu vim para Felixlândia com 14 anos. A minha profissão, na verdade, é enfermeira pediatra e cuidadora. Mas meu pai sempre estava precisando de mão de obra, e como eu nasci dentro de fazenda, eu gostava disso, de mexer com bicho. Amo de paixão, tanto que tenho uma fazendinha ali na minha casa. Eu vinha para ajudar meu pai de 15 em 15 dias, aí fui vendo que estava mais fácil ficar por aqui. E nessa de vir ajudar meu pai, conheci o meu abençoado, que trabalhava na fazenda ao lado, e estou com ele até hoje. Ele e meu pai trabalham até hoje na mesma área. E eu amo a minha profissão, mas se mandar largar tudo para mexer com bicho, é só me chamar que eu estou lá. Gosto demais!
A casa aqui atrás é do seu João Baiano e da dona Deolinda, os filhos deles são meus vizinhos. Dona Deolinda é a mãe que a gente tem aqui. Seu João faleceu, infelizmente, deixou muita saudade. Mas no dia 24 de junho, que é dia de São João, tem a fogueira dele aqui. É tradição, a família pega tora de lenha, o pessoal traz e faz a fogueira para ele. Não deixam passar o São João sem a fogueira dele de jeito nenhum. É muito memorável, uma recordação enorme.
E Felixlândia, sei que é pelo nome do Padre Félix, mas o nome Felixlândia, todo mundo fala “é um nome feliz”. No final de semana a gente foi a Belo Horizonte, a menina perguntou “você é de onde?” e eu respondi “de Felixlândia”. Ela falou “nossa, então é por isso essa felicidade toda! Felixlândia, de feliz, né?”.
E quais foram os impactos do rompimento da barragem da Vale aqui no bairro?
Fernanda: Para a gente foi um baque muito grande, principalmente para os pescadores. A gente sente falta até de ir tomar banho, antigamente eram ônibus e ônibus. Felixlândia sempre foi uma cidade turística, o pessoal vinha de longe para ir na represa tomar banho. Por ser uma cidade de turista e de pescadores, a gente sentiu muito forte, porque a nossa geração de renda foi devastada. Tanto que muita gente foi embora, procurar serviço fora. Só ficou mesmo a área de fazendas.
E as pessoas que vêm trabalhar aqui, essas empresas grandes que vêm para Felixlândia trazem as pessoas de fora. As mulheres que tinham o serviço de ir para a beira d’água, para ajudar os maridos a pescar, e mesmo as pescadoras, tiveram que parar também. Então o que tem mais é faxina para mulher, e para homem é serviço braçal, de fazenda. Então o pessoal ia atrás [do Programa de Transferência de Renda] para ajudar na renda, porque não tinha de onde tirar dinheiro. Porque ficou muito devastado mesmo de emprego.

Fernanda com a filha Kethlen e o pai, Germano.
Como você e sua família se aproximaram da luta por reparação e da Comissão Atingidos do Bagre?
Fernanda: Minha vizinha falou “Fernanda, tem uma reunião, você e seu pai querem participar?” e me disse que era sobre a Vale, que o pessoal ia vir apresentar o que estava acontecendo e ser nosso apoio aqui em Felixlândia. Falei com meu pai e a gente foi. Tiraram muitas dúvidas, tentaram explicar tudo da melhor forma possível. A gente estava com muita sede de saber o que estava acontecendo, por que a gente estava sendo privado de fazer tanta coisa que a gente gostava, por que a gente perdia tanto turista, por que a gente perdia tanto contato com o mundo lá fora.
E foi onde falaram sobre ter uma Comissão, explicaram que seria uma forma de conseguir mais respostas. Eu sou só um pedacinho, mas estou tentando ajudar como posso. E agradeço a cada um que bateu palminhas lá e me elegeu. Depois o meu pai entrou, porque às vezes eu não podia ir nas reuniões, mas ele podia.
A nossa Comissão é tipo família. Porque a gente se vê na rua, brinca, conversa, a gente não se encontra só lá. A gente passou a conhecer um ao outro bem. Até mesmo na nossa feira aqui, a gente viu como é bom conhecer mais o nosso vizinho. Virou um bairro onde um conhece o outro, cumprimenta, conversa.
Queremos saber mais sobre a feira! Vai acontecer outra?
Fernanda: A Cristiana, que está à frente, e os demais feirantes aqui da nossa comunidade estão querendo fazer outra, até querem fazer a cada quinze dias. A Comissão está tentando um lugar para fazer um galpão, onde pode ter cursos, fazer a feira. A gente tem uma rede de apoio que está tentando encarar isso com muita vontade. A nossa Comissão é de gente que quer e tenta ajudar!
Aqui tem muita gente que sabe fazer as coisas. Tem a salgadeira, tem a Angelita, que faz tempero, a Flávia, que vende artesanato – ela corta vidro, é muito interessante! Eu mesma não sabia que tinha tanto feirante assim, que sabiam fazer tanta coisa aqui no bairro.
E a Comissão já tem planos para os projetos comunitários do Anexo 1.1? O que vocês têm elaborado sobre isso?
Fernanda: Tem, e muito! Nosso projeto tem totalmente a ver, porque o Anexo 1.1 tem a finalidade de trazer renda para a cidade e para os moradores daqui. A gente teve até um último encontro sobre isso, para selecionar e jogar no papel, porque planos para cá a gente tem vários. A feira é um deles, os cursos para as nossas crianças, que estão crescendo e vão precisar de renda também, vão precisar trabalhar.
Imagens: Paulo Marques/Guaicuy.
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