Publicado originalmente no Piracema 19.
Manuelino Luiz da Silva, de 91 anos, e Maria Lúcia Machado (tia Lúcia, como a conhecemos por aqui), de 79, são amigos há mais tempo do que podem lembrar. “Ele é casado com minha irmã de criação. Nós fomos criados todos juntos, só que eu era de lá e ele de cá” conta dona Lúcia, apontando na direção do rio. Hoje, seu Manuelino mora em Paraopeba com um dos filhos.

Seu Manuelino e dona Lúcia, na horta dela.
Debaixo de uma goiabeira, no quintal de dona Lúcia, conversamos sobre as rezas e o ofício de benzer que os tornaram conhecidos na Cachoeira do Choro, comunidade de Curvelo. Seu Manuelino conta que aprendeu tudo com a mãe. “Foi ela que me ensinou. Enquanto vivo estiver, se Deus quiser, que eu cumpra o meu dever”, diz ele. Dona Lúcia relembra “ele benzia de dor de dente, você vê que hoje não existe isso mais. O irmão dele benzia de dor de dente, batia a faca e o dente da pessoa estourava, acredita? Estourava mesmo, é verdade”.
Dona Lúcia também aprendeu com a mãe a benzer. “Quebrante, espinhela caída, constipação, essas coisas”. Ela conta diversas histórias de crianças salvas pelas rezas e chás preparados na roça. “Minha mãe era parteira. Se tivesse que ganhar menino, chamava ela e ela ia. Porque as mulheres iam ganhar menino na roça, não era hospital, não.”
Dona Lúcia relembra as dificuldades de viver na roça em tempos mais precários, mas valoriza o conhecimento conquistado. “Todos os serviços de roça, tudo eu já aprendi. Sei fazer cobertas, fazer tinta de pau para tingir as linhas, pentear. Já criei um carneiro pra tirar a lã”, conta. Seu Manuelino afirma com orgulho que trabalhou a vida toda na terra. “Até hoje capino, gosto de plantar”, diz ele. “Em Paraopeba, tenho uma horta com verduras: couve, planta remédio, cebolinha. Tem tudo lá na casa do meu menino. Eu sou do campo, gosto de plantar”.
Imagens: Paulo Marques/Guaicuy.
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