Desde 2013, mulheres atravessam agulhas e linhas pelos tecidos registrando os atravessamentos que elas mesmas sofrem em suas vidas por serem mulheres atingidas por barragens. Alguns de seus bordados, feitos com uma técnica têxtil chamada “arpilleras” (telas bordadas), ocupam um espaço no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, o MASP desde 11 de abril.
A exposição “Mulheres Atingidas por Barragens: bordando direitos” vai até 3 de agosto e conta com 34 trabalhos produzidos em oficinas realizadas pelo Coletivo Nacional de Mulheres do MAB entre 2013 e 2024 em diversas regiões do país. Os impactos socioambientais, a dificuldade de reconstrução dos modos de vida, a impunidade das empresas causadoras dos danos, a violência de gênero e outras violações a direitos humanos sofridas são temas recorrentes dos bordados.
A peça “25 de janeiro”, criada por mulheres da Bacia do Paraopeba atingidas pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, ocupa a entrada do Museu na avenida Paulista. O trabalho não apenas integra a exposição, mas foi doado pelo MAB para o acervo permanente do museu, reforçando a valorização dessa expressão artística popular.

Peça “Arpillera 25 de janeiro”. Foto: Marcelo Aguilar/MAB
As primeiras oficinas com as mulheres atingidas por esse rompimento aconteceram na casa da família da Thalita Soares, moradora de Brumadinho. “Um ponto importante desses bordados é falar da questão que envolve esse círculo feminino, essa troca de histórias dos momentos que a gente passou e ainda passa, né? Porque o crime continua, ele perpetua… Ainda mais se tratando de Minas Gerais”, enfatiza.
A exposição reflete a luta das mulheres atingidas por barragens e a resistência e integra uma série de mostras do MASP dedicadas a “Histórias da Ecologia”, programação que compõe o tema central do museu em 2025. Em entrevista ao MAB, Glaucea Britto, uma das curadoras da “Bordando direitos”, afirmou que tratar desses temas é essencial para se entender o Brasil atualmente.
Segundo ela, permitir que os movimentos sociais ocupem esses espaços é essencial porque eles são “grandes responsáveis por um processo de entendimento e conscientização sobre essa lógica marginalizante” que opera no país, que tem uma sociedade fundada na violência desde a sua fundação.
Nesse sentido, os museus são espaços simbólicos capazes de amplificar as denúncias e os debates por meio da valorização dessas produções artísticas carregadas de significados. Expor essas obras faz com que as histórias alcancem e sensibilizem um público maior e ainda ajudam a redimir e ressignificar os próprios museus, que foram criados como dispositivos de poder.
Para Thalita, o fato de os trabalhos estarem expostos no MASP é grandioso: “Isso representa a nossa força como mulher, como atingida e como brasileira também. Porque a história vai se moldando através do bordado e isso vai enriquecendo o trabalho e contando a trajetória de cada uma naquele desenho. Eu acho incrível que isso seja lembrado”.
De acordo com informações do MAB, as arpilleras já foram apresentadas em diversos espaços culturais no Brasil, como o Memorial da América Latina (SP), o Museu de Arte da Bahia e a Universidade de São Paulo, e no mundo, em exposições na França, na Suíça, na Alemanha e nos Estados Unidos.
As oficinas realizadas pelo MAB utilizam a técnica como um instrumento de fortalecimento coletivo e de expressão política. As mulheres compõem um grupo vulnerável, sempre mais impactadas por problemas sociais devido à desigualdade de gênero. Ao mesmo tempo, elas sempre se destacam como lideranças, protagonistas da luta por justiça social.
A experiência dos encontros coletivos do bordado oferece uma oportunidade de compartilhamento de vivências e de fortalecimento. São encontros em que é possível desabafar sobre as violações enquanto se aprende uma técnica que serve como instrumento de expressão e visibilização desses temas sensíveis e dolorosos.
O uso das arpilleras não foi uma escolha impensada do Coletivo de Mulheres do MAB. A técnica tem origem no Chile, na década de 60, e foi adotada por mulheres como ferramenta de denúncia contra violações dos direitos humanos, de troca de informações e de resistência durante a ditadura no país.
Isabella Rjeille, também curadora da exposição, afirmou em entrevista ao MAB que a arpillera é um trabalho essencialmente feminino e coletivo e que as oficinas são capazes de reunir e organizar politicamente e socialmente essas mulheres, “proporcionando um espaço seguro para que elas possam compartilhar e elaborar suas experiências, além de fornecer materiais para que elas possam narrar suas próprias histórias”.
“Foi um momento muito importante para ver a perspectiva de cada pessoa atingida, como ela enxergava o crime e como que ela se desenvolveu depois dele. E isso foi bem legal de produzir porque tem um significado muito forte. Também foi muito bom participar e entender a história das arpilleras e depois poder reproduzir esse bordado no nosso contexto, do crime da Vale”, avalia Thalita.
Imagem destacada: Vitori Jumapili/MAB
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