“Esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo.”
— Paulo Freire, lido por Ana Heloísa durante a mística de abertura.
Foi com essas palavras que Ana Heloísa, da equipe de Direitos e Participação Social do Instituto Guaicuy, abriu o Café com Prosa no último sábado, dia 9 de agosto, em Antônio Pereira. A frase de Paulo Freire atravessou toda a manhã de encontro, inspirando escuta, acolhimento e construção conjunta com os moradores atingidos pelo risco de rompimento e danos ocasionados pelas obras de descaracterização da Barragem Doutor, da Vale.

Foto: Gabriel Nogueira/Instituto Guaicuy
Mais de 70 pessoas estiveram presentes, entre elas cerca de 50 moradoras e moradores da comunidade, além de representantes do Instituto Guaicuy e de instituições convidadas. O encontro foi um momento de reafirmação da luta coletiva pela reparação e pelos direitos das pessoas atingidas.
Durante o evento, Ronald Guerra (mais conhecido como “Roninho”), vi ce-presidente do Instituto Guaicuy e coordenador geral da Assessoria Técnica Independente de Antônio Pereira, abriu as falas destacando a força simbólica e concreta da presença de cada pessoa, não só ali, no espaço do encontro, mas também no mural construído na área externa da casa e em toda luta pela reparação integral.
“Cada pessoa que são vocês, atingidos pela Barragem Doutor, estão retratados aqui. E o que está retratado é o melhor de cada um dentro desse processo de sofrimento”, afirma Roninho, referindo-se ao painel instalado na parede, composto por mais de 300 imagens que contam visualmente a história de Antônio Pereira. São rostos e registros de moradoras e moradores do distrito, crianças da Ciranda Pereirinha, jovens da oficina de fotografia, integrantes da Comissão de Pessoas Atingidas, referências comunitárias, pessoas removidas pela zona de autossalvamento (ZAS), núcleos comunitários, paisagens locais e pessoas da equipe do Guaicuy, todos lado a lado, compondo um retrato coletivo.
O painel, feito para ocupar toda a parede do espaço externo, simboliza que o Guaicuy é um espaço de e para todos. Um território compartilhado, onde cada pessoa atingida é protagonista dessa caminhada por justiça e reparação. “Dentro da dor, a gente consegue encontrar essa qualidade também. É essa energia que nos une diante de tantas mazelas que a mineradora faz no território”, afirma o coordenador, ressaltando ainda que o fortalecimento da atuação do Instituto após a recente decisão judicial que garantiu a continuidade da Assessoria Técnica Independente no território: “a juíza determinou que é fundamental que o Guaicuy esteja do lado das pessoas atingidas enquanto não houver reparação. Essa decisão fortaleceu o processo. Conseguimos montar uma rede de profissionais diversos, e essa confiança que vocês estabelecem com o Instituto nos dá uma grande responsabilidade, mas também uma gratidão muito grande”.

Foto: Duda Garcia/Instituto Guaicuy
Marilda Dionísia, representante da Associação de Proteção Ambiental de Ouro Preto (APAOP), exaltou a luta pelos direitos das pessoas atingidas por mineração, destacando o marcante significado da permanência da ATI em Antônio Pereira. Para ela, essa conquista não se limita aos limites geográficos do distrito; é um precedente que fortalece outras comunidades em luta por justiça frente à mineração. A decisão que garantiu a continuidade da Assessoria Técnica representa um passo firme na consolidação dos direitos dos atingidos, com impacto que ultrapassa o local e reverbera em toda a pauta nacional de reparação.
“Não é uma vitória só do território de Antônio Pereira, é visto como uma vitória nacional. Se todo território que é atingido por mineração, que tem pessoas doentes por causa da mineração, conseguir conquistar o direito à Assessoria, é uma vitória dos povos, das comunidades, das pessoas mais simples, é uma vitória coletiva. É uma vitória que transcende os atingidos. O Instituto Guaicuy nesse momento representa a luta de direitos conquistada. A força dessa comunidade é muito importante e responsável pela retomada do Instituto Guaicuy no território. Parabéns, essa é uma conquista que não atinge só vocês, atinge todos nós também”, afirmou Marilda.
Para José Geraldo dos Santos, membro do Conselho de Garimpeiras e Garimpeiros Notáveis de Antônio Pereira, a importância da união da comunidade é a força para manutenção da luta coletiva. O garimpeiro tradicional fez um chamado pela mobilização popular em prol dos direitos dos atingidos.
“Os mais velhos lembram como eram floridos os pés de jabuticaba, as montanhas como eram cheias de árvores, e hoje como está. A gente não pode fraquejar, a gente não pode desistir. A luta é grande, é doída. Dói demais”, afirmou José Geraldo. “Vamos continuar na luta. O Guaicuy está nos representando, mas temos que estar junto com eles […]. Se o boi soubesse a força que tem, não iria para o matadouro. Então não vamos desistir. Vamos trazer mais gente, vamos conversar. A Vale não sabe a força que a gente tem.”
Entre as atividades da manhã, uma das mais tocantes foi a dinâmica das flores, conduzida pela equipe da ATI. Os participantes escreveram em flores de papel sentimentos de dor, raiva ou/e frustração. Depois, foram convidados a “replantar” essas dores com palavras de esperança. A palavra mais mencionada foi poeira, evidenciando o sofrimento contínuo com a poluição do ar no distrito em decorrência das obras de descaracterização da Barragem do Doutor, da Vale.
“No meu caso, é a poeira. Perdi o meu esposo há três meses por problemas respiratórios, eu tenho problemas respiratórios também gravíssimos. Eu uso três bombinhas (inalador dosimetrado)”, contou Laurita Dias de Jesus, mais conhecida como Dona Laurita, enquanto coletava sua flor amarela.
Confira o compilado completo sobre a poeira em Antônio Pereira
Acesse: a luta contra a poeira em Antônio Pereira

Ao lado da Ciranda Pereirinha (espaço lúdico que reuniu crianças e adolescentes em atividades sobre pertencimento, direito e memória), as vozes pequenas também marcaram o dia: os pequenos se apresentaram com o hino da Ciranda e uma coreografia da música ‘O Ipê Já Nasceu’.
O encerramento do evento foi marcado pelo plantio simbólico de um Ipê-amarelo, árvore nativa e símbolo de resistência, realizado coletivamente junto às crianças da Ciranda. As flores retiradas da parede e nomeadas com as dores de cada um foram enterradas junto às raízes do Ipê, como símbolo de ressignificação dessas palavras em sementes para algo novo e que, no lugar do sofrimento, floresça beleza, resistência e presença.
Izabella Resende, Gerente da ATI Antônio Pereira, apresentou toda a equipe do Instituto Guaicuy empenhada na execução de todas as ações e suas respectivas funções. Segundo a gerente, em meio a luta árdua das pessoas atingidas, é fundamental ter esse espaço para o encontro e celebração “em cada olhar, abraço e conversa que temos nesse escritório, que é da comunidade de Antônio Pereira, nós nos fortalecemos”.
O Café com Prosa reafirma o papel da ATI como ponte entre comunidade e justiça, e como espaço de fortalecimento coletivo em meio às adversidades. A manhã foi encerrada com partilhas sensíveis, abraços, escuta ativa e o desejo mútuo de continuidade no caminho da reparação.
Texto impactante sobre a situação caótica e o abalo emocional que vivem. E a importância de uma instituição como a Guaicuy dando suporte para esta causa! Parabéns a todos! E que Deus abençoe infinitamente a vida de vocês que se dedicam!