O documentário “Fazendinhas Baú – Comunidade atingida pela Vale luta pelo direito à água”, do Instituto Guaicuy, será exibido neste domingo (31) no Cine Santa Tereza, em Belo Horizonte, como parte da programação do Cine Paraopeba. A mostra acontece nos dias 29, 30 e 31 de agosto com filmes gratuitos e é organizada pela Aedas, instituição que presta Assessoria Técnica Independente para algumas regiões atingidas pela Vale com o rompimento da barragem em Brumadinho. “Levar esse documentário para ser exibido nos ajuda a mostrar para o máximo de pessoas possíveis como é a vida de uma comunidade que teve o acesso à água impedido pelo crime da Vale”, diz Sávio Alves, um dos entrevistados do filme.
A comunidade de Fazendinhas Baú, no município de Pompéu (MG), localizada no Baixo Paraopeba, luta pelo direito à água potável há quase sete anos. Sávio é morador da comunidade e integrante da Comissão Baú e Piau. Ele acompanha desde o início as violências vivenciadas pelos moradores e moradoras. “Hoje nós temos peixes contaminados, animais doentes, pessoas com doenças de pele, contaminação do solo, dos poços artesianos, água imprópria pra beber, problema de doenças mentais e temos também a desvalorização dos terrenos”, explica.
O documentário, lançado em novembro de 2023, traz relatos de pessoas como Zé Maria, Élida, Dona Reinira, Euclides e Lobinho. Em comum, todos têm o apreço pelo Rio Paraopeba e a saudade de quando ele fazia parte da vida destas pessoas. “Escolhemos este filme dentre os vinte que produzimos nestes mais de cinco anos como Assessoria Técnica Independente porque os problemas vividos por estas pessoas continuam intactos. Nada mudou. A água é um direito básico que não deveria ser violado nunca. Tentamos registrar para que não seja esquecido, para ser mais um elemento de luta na trajetória dura que essas pessoas são obrigadas a atravessar depois que o Rio Paraopeba foi tirado delas”, diz Daniela Paoliello, supervisora de audiovisual do Instituto Guaicuy.
Confira a programação completa da mostra
Quem vive em Fazendinhas Baú conta com abastecimento de água por meio de um sistema de captação de três poços artesianos e no bombeamento para uma caixa d’água. De lá, a água vai até as casas de cada um. Os poços 1 e 2 possuem filtros instalados pela Vale que não funcionam pois, segundo as pessoas atingidas, a energia elétrica disponível, de um padrão voltado para energia rural, não tem tensão suficiente. Já o poço 3 está seco.
Assim que houve o rompimento da barragem da Vale, começou a desconfiança por parte da comunidade em relação à qualidade da água que chegava às torneiras. “Ela tem um cheiro estranho. Tem gente que pega até uma coceira nessa água, nessa lama podre aí”, relata Lobinho, agricultor e comerciante, no documentário.
Segundo informações levantadas pelo Guaicuy e divulgadas para a comunidade entre novembro de 2020 e setembro de 2022, foram realizadas quatro análises independentes de qualidade de água no principal poço da comunidade que, nos períodos de cheia, está a uma distância de pouco mais de 10 metros do Rio Paraopeba. Em todas as análises foram observadas concentrações de ferro acima do limite, chegando a estar até dez vezes acima do valor permitido pelas legislações autoridades. Elas seguiram as normativas da legislação ambiental referente à água subterrânea.
O segundo poço da comunidade, que se encontra em uma área próxima, porém mais alta e mais distante do rio, não apresentou nenhum parâmetro alterado nos meses entre agosto de 2021 e fevereiro de 2022. No entanto, a água do poço alterado é misturada com a desse poço em um único reservatório, o que pode comprometer a qualidade da água distribuída em toda a comunidade. A Secretaria da Saúde Estadual (SES) também já divulgou análises com diversas alterações no poço principal. Na época, a SES indicou a instalação de um filtro de alta performance na comunidade, que foi feita pela Vale no início de 2023, mas ainda não funciona.
As análises de água do Rio Paraopeba realizadas pelo Guaicuy mostraram metais como alumínio, ferro e manganês em concentrações acima do limite permitido na maioria das coletas, sobretudo nos períodos chuvosos. Para os sedimentos coletados no mesmo ponto, também foram observados metais como cromo e níquel em quantidades superiores aos valores máximos estabelecidos pela lei.
Em nota técnica publicada em agosto de 2023, a AECOM, que cumpre o papel de auditora das Instituições de Justiça no processo de Reparação Ambiental, reforçou a negativa de fornecimento de água por parte da Vale à comunidade. A auditoria considerou que enquanto o critério de 100 metros não for revisto, a decisão da mineradora é válida, ainda que reconheça que há alterações na qualidade da água do poço da comunidade de acordo com as análises realizadas pela Secretaria de Saúde Estadual, e conclui que o filtro deve entrar em funcionamento.
Em fevereiro de 2025, o Instituto Guaicuy enviou um ofício às Instituições de Justiça com embasamentos técnicos para solicitar a instalação de um sistema de tratamento da água em um novo poço perfurado em junho de 2023 pela empresa loteadora da comunidade, já que em outubro de 2024 uma análise emitida pela SES constatou que a água deste quarto poço também estaria imprópria para consumo, com níveis de ferro e manganês acima do limite permitido. Localizado a 440 metros do rio Paraopeba, o resultado da análise do novo poço reabre o debate sobre a validade técnica do buffer de 100 metros estabelecido pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM) em 2019 e utilizado como premissa para fornecimento de medidas emergenciais pela empresa ré.
O ofício também pede a continuidade do monitoramento da qualidade de água deste poço e indica que ele não seja utilizado até que a comprovação da condição de potabilidade se estabeleça. Ainda solicita que o fornecimento de água potável seja disponibilizado até que as condições adequadas ao consumo sejam comprovadas. Até hoje o Instituto não recebeu nenhuma resposta.
No dia 9 de março, a Comissão Baú e Piau, em conjunto com a Associação dos Amigos de Fazendinhas Baú (AAFB), encaminhou uma carta na qual expôs preocupações relacionadas à situação da água na comunidade. O documento também destacou os resultados das análises de água subterrânea da SES, bem como o fato de que os filtros instalados pela Vale não funcionam de forma adequada.
Diante desse cenário, a Comissão solicitou ao Comitê Pró-Brumadinho, à Secretaria Estadual de Saúde, à Vale, à Coordenadoria de Inclusão e Mobilização Social do Ministério Público de Minas Gerais (CIMOS/MPMG) e ao Núcleo de Vulneráveis da Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais (NPVC/DPMG) medidas urgentes, tais como o fornecimento de água para consumo humano e animal, a implementação de alternativas de filtragem e a continuidade do monitoramento da qualidade da água.
No dia 10 de março de 2025, a promotora de Justiça Shirley Machado de Oliveira, da CIMOS/MPMG, respondeu informando que requisitaria esclarecimentos à Vale e compartilharia a resposta com o Comitê de Compromitentes, de modo a viabilizar uma manifestação conjunta sobre os pontos levantados pela Comissão. Entretanto, até o presente momento, a Comissão Baú e Piau permanece sem retorno efetivo e sem encaminhamentos práticos para a resolução da situação relatada.
Enquanto aguardam o andamento do processo de reparação dos danos causados pela mineradora, os moradores de Fazendinhas Baú tentam viver os dias com o mínimo de dignidade. “Aqui era um paraíso antes do rompimento. Eu ainda lembro como se fosse hoje, um fim de semana era gente de tudo quanto é lado, você chegava na beira do rio, tinha barraquinha montada de tudo quanto é jeito. Eu pensava: opa, aqui acertei a boa! Mas, infelizmente a Vale deu para nós esse terrível presente”, lamenta Zé Maria.
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