Minas Gerais é a unidade da federação com o maior número dessas estruturas: são 333 ao todo, das quais 45 estão em Nível de Alerta ou Nível de Emergência
A Bíblia conta a história de como Davi, um homem que, apesar de rei, era comum em altura e jeito, derrota Golias, um gigante. Na história, Davi derrota Golias jogando uma pedra em sua cabeça, derrubando-o. O que chama a atenção é que, dessa diferença de força entre os dois, o mais fraco consegue vencer o mais forte. É assim que Alliane se sente quando é perguntada sobre a luta contra a mineração em Antônio Pereira, distrito de Ouro Preto duplamente atingido pelas catástrofes minerárias da última década. “É como se você fosse Davi e tivesse diante do Golias. Acho que todo mundo que você perguntar isso, as guerreiras de Antônio Pereira, vão responder com a mesma força que eu vou responder. Você pegar o pai, o filho e o Espírito Santo e ter certeza que a vitória, a justiça, só vem dele. Porque do ser humano, a gente não espera. É só a fé, a fé e a esperança.”
Alliane de Oliveira Veríssimo é uma das guerreiras de Antônio Pereira há seis anos. Antes morava em Betim. Com 44 anos, vive com o marido, Carlos, os filhos e o enteado. A casa de Alliane fica na pedreira, próximo à Igreja Queimada, um dos pontos turísticos do distrito. Lá ela cuida da horta, da casa e de suas criações, as galinhas e vacas que ela e o marido compraram aos poucos. Quando se mudou para a região, a vida era mais tranquila e com clima de interior, próprio para as plantações e criações, dos banhos de cachoeira, das crianças jogando bola na rua e da promessa de um envelhecimento saudável.
Hoje, após a mineração se expandir pelo território, a vida simples e tranquila foi destruída. “Eles colocaram portaria ali, colocaram portaria lá. A gente não tinha acesso à cachoeira. Quando você vai passar por outra estrada, quando eles puseram a estrada, os guardinhas já falavam que não podia passar. Quando meu menino ia soltar as vacas, meu enteado ia soltar as vacas, eles falavam que não podia soltar as vacas. As placas estão ali de todo o tamanho, é proibido nadar, é proibido pescar. É proibido fazer tudo.”
Também é proibido viver, sonhar e sustentar a casa. No processo de desocupação das chamadas ZAS (Zonas de Auto Salvamento) – áreas em que nenhuma instância governamental conseguiria fazer o resgate das pessoas em caso de rompimento da barragem de Doutor – a Vale não pede a casa de Alliane, mas a torna inabitável para ela e a família. O cotidiano das vidas ali, que antes tinham como forma de sustento o que vem da própria terra, é arrancado. O presente é quebrado e o futuro no lugar é desfeito. Com os olhos já cheios de lágrimas, Alliane conta: “A gente tinha renda de leite, de esterco, de horta. Tudo a gente tirava daqui de dentro. A gente tinha fartura de tudo. As guloseimas que os meninos gostavam, um Danone, as guloseimas que a gente gostava também de fazer para eles, um bolo de aniversário, um brigadeiro, uma sobremesa, um almoço melhor dia de domingo, um churrasco. Isso a gente não teve por bons tempos, a gente teve que regredir bastante, porque a gente dava prioridade para o grosso de dentro de casa. A gente não tinha mais as vacas, a gente não tinha mais o leite, a gente não tinha mais a horta, a gente não tinha mais o esterco e a gente não tinha mais vida, porque a nossa vida era cuidar das nossas criações. Era cuidar da nossa horta. Então eles tiraram o direito da gente de viver. Eles tiraram o jeito da gente de viver.”

Aliliane, uma das guerreiras de Antônio Pereira. Foto: Vinicius Paes/Revisa re.lato

A ameaça silenciosa da mineração invade os ambientes da comunidade. Foto: Isabela Melo/Revisa re.lato
Alliane e a família tinham um garrotinho vermelho, de mais ou menos um ano e meio. Soltaram o bicho no pasto. Ele se assustou com os barulhos das máquinas da construção da estrada para descompressão da barragem, que passa atrás da casa deles, e correu para a BR. Foi atropelado por uma moto. Voltou para casa de Alliane assustado e com medo. Precisou ser sacrificado, estava muito machucado e não sobreviveria. “São marcas que a Vale não tem noção que tá deixando. Hoje, quando você me fala em mineração, eu entendo que a mineração gera emprego, ela gera recurso, ela gera sustento, mas ela traz em si um rastro de sangue.”
Dona Giovania Santana Gonçalves é moradora de Antônio Pereira há 18 anos. Aos 63 anos, ela vive com o marido no distrito. A casa de Dona Giovania fica no loteamento novo, próximo da ZAS de Antônio Pereira. Lá, a poeira que vem da barragem, que se levanta com o vento e com os caminhões grandes que passam por ali, não a deixa em paz. O chão, que antes era branco, agora tem um tom de bege, as roupas nunca ficam limpas no varal. Dona Giovania conta que o marido irá precisar passar por uma cirurgia, porque o alto índice da poeira fechou o seu canal lacrimal. “Só existe uma palavra: a barragem. Só ela. Mais nada. Os outros medos a gente pode evitar, né? Eu tenho medo de andar à noite, eu não saio à noite. Mas como é que eu vou evitar isso aqui? Como é que a população vai evitar essa barragem aqui? Todos têm medo, todos têm medo.” Quando o desastre-crime aconteceu em 2015, o medo do rompimento da barragem de Doutor foi entrando aos poucos em casa. Depois, quando a tragédia se repetiu em 2019, em Brumadinho, o medo entrou pela porta da frente e passou a ser um morador da casa de Dona Giovania.
A mineração, sem ser convidada, entra pela porta da frente na natureza, levanta poeira, polui as águas, altera a forma natural das montanhas e cachoeiras. “Fui pegar um copo de água e parece que tinha pegado terra e jogado ali, esperado ela assentar e ficar aquela coisa marrom. Isso é um absurdo… E a natureza está pedindo socorro. Não é só nós que estamos pedindo socorro. A natureza está pedindo também”, lamenta Dona Giovania.

Dona Giovania, moradora de Antônio Pereira. Foto: Vinicius Paes/Revista re.lato
O pesquisador Daniel da Mota Neri usa o termo “terrorismo de barragem” em sua tese de doutorado e explica que a tentativa de desabitar os territórios perto das barragens é uma forma de terrorismo. “O terror foi forjado no seio das comunidades”, diz ele sobre a violência. O terrorismo de barragem é um dos modos como as mineradoras atuam. Além da desabitação de territórios, transformá-los em locais mais difíceis de se viver também faz parte do plano. Em Antônio Pereira, o toque das sirenes toma conta do ambiente no período mais chuvoso, que vai de novembro a março. Junto com as placas de rota de fuga, o distrito encarna um cenário que não prega a segurança para uma boa vida. A mineração tem arrancado territórios, vidas e memórias. No mesmo lugar, têm colocado o medo, a ansiedade e a poção.
O terror não se faz presente apenas nas ruas, casas e na natureza. Alliane e Dona Giovania ainda precisam viver com o psicológico afetado e a perda da saúde resultantes de conviver com a mineração na porta de casa. Ambas relatam que os problemas psicológicos começaram a se manifestar de forma tríplice, após a intensificação da atividade mineradora no território. “Mas hoje, eu me vejo impotente aqui. Porque a enfermidade veio com força, né? A enfermidade mãs é psicológica, é a cabeça. Já passou do limite da insulina. Passei de limte do monte de diabetes, tá tudo acima. A médica queria aumentar a insulina, eu disse: ‘Não, não aumenta não, eu já não aguento mais isso não’. Porque o medo, essa é a palavra certa, o medo dessa barragem… por muito que eles falam que não tem perigo… A de Brumadinho também não tinha perigo não, né?”, comenta Dona Giovania.
Aisllan Diego de Assis é professor de Saúde Coletiva da Escola de Medicina da Universidade Federal de Ouro Preto. Um de seus projetos, o Acalento, funcionava como um grupo de acolhimento em Antônio Pereira. “Era um grupo terapêutico que estava muito bem preparado e muito bem construído para receber as pessoas da comunidade nesse acolhimento para saúde mental, porque são pessoas atingidas. É uma comunidade atingida com graves problemas de saúde e de saúde mental. Então, tinha que ter um uma referência para eles cuidarem dentro do posto de saúde.”
O emocional de atingidos em Antônio Pereira é diretamente afetado pela barragem e as outras intervenções da mineração. O terrorismo também é presente na saúde mental. “O que as pessoas falavam e o sofrimento que aparecia, a primeira coisa que eu percebi ao começar as sessões era uma quantidade enorme de pessoas vivendo em sofrimento mental. Deprimidas, ansiosas, em crise suicida, com medo, com pânico.” O grupo Acalento atendeu, em sua maioria, mulheres como público principal. Antônio Pereira se tornou um local de adoecimento psíquico, devido ao terrorismo de que são vítimas.

A sirene existe em dois mundos distintos. Em certos momentos, imponente, com a potência do ruído que anuncia a devastação. Foto: Vinicius Paes/Revista re.lato

Em outros, a sirene se mistura ao cenário comum e passa quase despercebida. Foto: Isabela Melo/Revista re.lato
Elas veem seu lar ser destruído e têm medo de levar os filhos para a escola por causa da barragem. “Isso gera mulheres em crise. Elas ficam muito deprimidas, muito ansiosas, ficam com o corpo todo adoecido. São problemas ortopédicos, musculares, dores, cânceres, diabetes, hipertensão. E mesmo assim, sendo esse personagem mais sofrido, mais humilhado, mais abandonado da sua saúde, porque elas têm tanta coisa para fazer que não têm tempo para cuidar da sua saúde. Elas são as que estão mais descobertas das ações, são as que ficam mais desassistidas”, comenta Aisllan. O Coletivo das Mulheres Guerreiras de Antônio Pereira luta para conseguir a assistência digna para a população do distrito e, sobretudo, para acabar com o desgaste da luta por direitos humanos básicos que as mulheres merecem.
A psicóloga clínica e social Camila Veras pesquisou, no mestrado e no doutorado, os impactos psicossociais em territórios atingidos por barragem. A pesquisa deu origem, em 2021, ao livro Lama, luto e luta. Camila usa a psicologia social para falar dos impactos que ter uma barragem próxima à vida pode causar nas pessoas. “Esse sofrimento é contextualizado num processo estrutural que se dá nesses territórios. E a manifestação psíquica disso vai variar, vai depender da condição desse sujeito. Quando eu digo que os territórios atingidos pela mineração possuem um índice alarmante de pessoas com diagnóstico de depressão ou transtornos ansiosos ou uma propensão maior à ideação suicida ou ao suicídio, isso chama atenção, né? Isso informa um problema, mas a gente corre um risco de pensar nesse problema de uma maneira somente assistencial. O território não é só um espaço físico, geográfico, ele é também um espaço simbólico, da construção das histórias, das memórias, da família, dos filhos, do casamento.”
Enquanto as instâncias governamentais não zelam por quem está nessa situação, os atingidos pedem a intercessão divina. “Pai Nosso que estais nos céus… e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos de todo mal. Amém.” É a proteção que pedem Alliane e Dona Giovania, em Antônio Pereira, para as guardarem da barragem de Doutor e dos demais problemas que a mineração leva na porta da casa delas. Já em Santa Rita Durão, distrito de Mariana, Dona Zizi pede intercessão para Nossa Senhora. “Nossa Senhora de Nazaré não deixa nada com nós aqui, não.”
Dona Zizi Ferreira é de Bento Rodrigues, mas mora em Santa Rita Durão há 43 anos. Gosta de fazer seu crochê e cuidar de seus animais. É apaixonada pelo distrito e, segundo ela, só sai dali para o cemitério. Perdeu a casa dos pais em 2015 por causa do desastre-crime. As placas e as sirenes hoje em dia não causam medo. “A gente no princípio, ficou com um pouco de medo. Vou negar pra você não, porque a gente assustou, né? Igual a gente que viu o que aconteceu nos outros lugares.”
As três barragens em Mariana, Germano, do Xingu e de Campo Grande, que devem ser descomissionadas por exigência da lei estadual nº 23.291, de 2019, cercam esse pedaço de terra. A Barragem de Dicão Leste, que está em risco de emergência segundo a FEAM (Fundação Estadual do Meio Ambiente), também fica perto do distrito. As manchas de inundação das barragens da Mina da Alegria e da Mina do Fazendo se mesclam, mas atravessam Santa Rita.
Depois da lei estadual Mar de Lama Nunca Mais, é obrigatória a instalação de sirenes e a instrução da população para onde fugir em caso de rompimento da barragem. A mancha de inundação define onde e para qual lado ficam as placas de rota de fuga das chamadas ZAS (Zonas de Auto Salvamento). Parte de Santa Rita Durão é considerada ZAS, já que em caso de rompimento, a lama invade o vilarejo.

A fotografia da casa dos pais de dona Zizi é orgulhosamente exposta na sala de sua casa. É a única lembrança da casa de seus pais falecidos. Foto do arquivo pessoal da dona Zizi. Foto: Isabela Melo/Revista re.lato
Jean Roberto, líder da Associação de Moradores do distrito, tem um altar com diversos santos na sala de casa. “É, peleja, vai pelejar com quem? É, peleja pra tudo quanto é lado menina. Não tem saída, ué.” Para ele, as placas são para turista ver. Porque quem mora lá, diz, já se acostumou com o cenário das “rotas de fuga”.
Como parte do treinamento de evacuação, os moradores receberam uma pasta para guardar documentos, para facilitar uma possível fuga. Mas Dona Zizi confia que não vai acontecer de novo. “Eu não tenho essa mania, não, porque eu tenho que nós não vai ter esse perigo, não. A gente reza muito, pede muito com fé e eu acho que dessa vez eles não vão correr esse risco de acontecer isso com a gente de novo, não.”
O maior medo dela é deixar Santa Rita Durão. “O medo maior que eu tenho é de ir embora daqui. É isso. Porque a vida da gente é toda aqui.” Não existe lugar melhor e mais tranquilo para se viver do que Santa Rita, mesmo com as sete barragens que margeiam o local. Jean também gosta da qualidade de vida do distrito. Para ele, sair de casa e poder deixar tudo aberto é um luxo. “Tem um lado ruim, mas tem um lado bom.”
“Confio, porque também não tem jeito, né? Onde a gente vai?
A gente vai correr para onde?
É esperar e pedir a Deus. Mas Deus, Nossa Senhora Nazaré não vai deixar isso acontecer com nós, não.”Dona Zizi Ferreira
Jean Roberto conhece um pouco mais sobre os projetos de mineração ao redor do distrito. Que são muitos. “Qualquer lugar que você for aqui é mina. Só mina. Então, o povo já tá acostumado com isso.” A mineração não para. E tem planos de aumentar as investidas para o lado de lá, pois as pilhas de estéril do mesmo tipo da que ficou instável em 2023 e causou pânico na comunidade devem aumentar… “É difícil da gente conviver com isso, mas não tem outra saída. A pilha de estéril você tem problema. Você tem um risco menor, né?, mas ela tem deslizamento”, fala Jean.
Não tem água igual as barragens a montante, mas tem poeira. “Ao filtrar essa parte não é aproveitada pela mineração, que são os rejeitos e os estéreis, ao invés de jogar em barragem, eles constroem pilhas de rejeitos, que são basicamente morros artificiais”, explica o advogado ambiental Bernardo Campomizzi. Mas as pilhas não possuem regulação municipal, estadual ou federal sobre altura máxima ou distância das comunidades, segundo Campomizzi. Nem consideram as mudanças sociais que podem ser causadas com a poeira, o barulho, a iluminação e o tráfego de veículos de grande porte.
O terror continua e procura novas formas de acontecer: as pilhas de rejeito são uma nova roupagem para o terror. O projeto a longo prazo da mineradora Samarco (Vale e BHP) tem como objetivo expandir as atividades da empresa em Mariana por meio da filtragem do minério. “Eles vão empilhando os rejeitos e os estéreis em determinados locais. E, para isso, apresentaram para a sociedade a construção de pilhas de rejeito e estéril próximo a comunidades, basicamente próximo ao Bento origem e próximo a Camargos”, informa o advogado.
Os modos de vida de Santa Rita Durão e Antônio Pereira são usurpados. Lugares e entornos recheados de riquezas são vendidos pelos governos para o lucro da mineração. Mineração essa que não pensa nos direitos sociais, culturais e econômicos de quem já estava lá antes e que, para as empresas, são inferiores em um papel. Habitar, crescer e povoar essas regiões é lutar todos os dias para manter direitos humanos básicos. Seja nos distritos de Antônio Pereira e Santa Rita Durão, ou até mesmo em Barão de Cocais, Brumadinho, Congonhas, e Macacos, o terrorismo é um dos moradores. O vizinho chato que incomoda e não deixa ninguém em paz. E o sonho? Ele que vá embora.
Reportagem
Ana Beatriz Justino
Maria Clara Cardoso
Revista re.lato
www.calameo.com/read/007831346e42865cc2f13
O que você achou deste conteúdo?