O Instituto Cordilheira divulgou, em março deste ano, um dossiê que evidencia contradições entre o que diz e o que faz a mineradora responsável pelos dois maiores crimes-desastres socioambientais do país.
“A Verdade Sobre a Vale S.A. em Minas Gerais: compromissos e abusos” é o título do dossiê publicado pelo Movimento pelas Serras e Águas de Minas Gerais (MovSAM) e pelo Instituto Cordilheira, ONG mineira que atua na defesa do meio ambiente, dos direitos humanos e do patrimônio no estado. O documento sistematiza as contradições entre os discursos institucionais da mineradora e os impactos reais gerados por suas operações. Escrito pelos pesquisadores Carolina de Moura Campos, Daniel Neri e Maria Teresa Viana de Freitas Corujo, a publicação reúne dados públicos, relatórios corporativos e documentos da própria empresa para evidenciar uma conduta marcada por violações de direitos, riscos ambientais e negligência sistemática à vida das pessoas.
Leia o dossiê completo produzido pelo Instituto Cordilheira
Apesar das inúmeras promessas públicas de responsabilidade e segurança, a realidade vivida pelas comunidades que sofrem danos causados pela mineração em Minas Gerais revela um cenário profundamente contrastante. A imagem que a Vale busca projetar como uma empresa comprometida com a sustentabilidade social e ambiental não condiz com a experiência concreta nos territórios afetados.
“(…) O nosso principal valor é a vida em primeiro lugar, e a segurança tem sido uma obsessão na nossa companhia. Fazem parte desse compromisso a saúde e o bem-estar não só de quem faz a nossa empresa, mas também das comunidades com as quais interagimos.”
— Relatório Integrado Vale S.A., 2022 (p. 5)

Foto: Leo Souza/Instituto Guaicuy
Enquanto a Vale afirma colocar a vida em primeiro lugar, o dossiê evidencia que diversas frentes de mineração em Minas Gerais seguem avançando sobre territórios fragilizados, inclusive com o aval de novas licenças e projetos de expansão. O documento chama atenção para empreendimentos que preocupam pesquisadores e atingidos: como a possível retomada das atividades nas minas Córrego do Feijão e Jangada, em Brumadinho; os projetos “Apolo” (Serra do Gandarela) e “Serra da Serpentina” (Conceição do Mato Dentro); além da série de abusos que afetam a comunidade de Antônio Pereira, marcada pela insegurança gerada pela Barragem Doutor e pelos impactos das obras de descaracterização.
Os rompimentos das barragens de Fundão (2015) e Minas Córrego do Feijão (2019) escancaram um histórico de falhas operacionais e ausência de reparação efetiva. E, mesmo diante desses marcos, a empresa segue obtendo licenças e ampliando suas frentes de extração.
“Como a essência da mineração é ferir a natureza, explodir o corpo da terra, abrir buracos, secar aquíferos e extrair um recurso natural finito, a mineração será sempre insustentável” — reforça um trecho do dossiê (p. 5).
Segundo o levantamento do Instituto Cordilheira e do MovSAM, apesar das campanhas e posicionamentos públicos, a Vale figura entre as empresas mais rejeitadas por investidores no Brasil e ocupa o segundo lugar mundial em número de exclusões por desrespeito aos direitos humanos. Há, portanto, um descompasso entre o que a mineradora declara nos relatórios aos acionistas e o que efetivamente impõe aos territórios explorados.

Foto: Hariane Alves/Instituto Guaicuy
O dossiê surge, então, como um documento estratégico de denúncia. Ao compilar provas documentais e propor recomendações diretas a investidores, ele visa pressionar por ações concretas e urgentes para mitigar os danos causados e responsabilizar a empresa por suas práticas recorrentes de violação de direitos humanos e ambientais.
“Diante do teor deste dossiê e sérias preocupações registradas, alertamos aos investidores e acionistas da Vale para o fato de não se tornarem signatários das violações, com risco de serem responsabilizados também, pelos impactos ambientais, sociais e econômicos das operações da Vale em Minas Gerais.” trecho do dossiê (p.59)
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