Instituto Guaicuy

Todo dia a mesma tarde: a história não contada de um sobrevivente*

10 de novembro, 2025, por Ellen Joyce Marques

No dia 5 de novembro de 2015, Douglas Garcia (DuRio), trabalhava na construção de um dreno da barragem de Fundão quando a estrutura da Samarco rompeu. Sobreviveu ao desastre-crime e, há exatos 10 anos, carrega as marcas daquele dia.

Por Douglas Garcia (DuRio)
com apoio de Eduarda Garcia e Ellen Barros

Dois moradores de Antônio Pereira morreram no rompimento da barragem de Fundão, em Mariana/MG. Mateus Márcio Fernandes, de 29 anos, foi arrastado pelo mar de lama e teve o corpo encontrado três semanas depois. Cláudio Fiuza, de 40 anos, colega de trabalho de DuRio, passou mal enquanto tentava escapar e não resistiu. DuRio e o amigo fugiram juntos no momento em que a barragem se rompeu.

Com o rompimento vieram o desemprego, a fome e a desestruturação social que atingiram toda a comunidade. Foi nesse contexto que DuRio passou a integrar a comunidade de garimpeiros e garimpeiras tradicionais, ofício que ajudou a sustentar o distrito de Antônio Pereira quando o comércio local entrou em colapso.

A população ainda sofre os impactos da sobreposição de danos: é atingida tanto pelos efeitos do rompimento da barragem de Fundão, da Vale, Samarco e BHP, quanto pelo risco de rompimento e pelas obras de descaracterização da Barragem Doutor, também da Vale. Pouco mais de um ano após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, em abril de 2020, o risco de colapso da Barragem Doutor foi elevado, provocando remoções compulsórias de famílias que viviam na Zona de Autossalvamento (ZAS).

Hoje, DuRio integra a Comissão de Pessoas Atingidas de Antônio Pereira e ainda luta para ser reconhecido oficialmente como atingido pelo rompimento da barragem de Fundão, mesmo após sobreviver ao rompimento, testemunhar a morte de colegas e comprovar, com documentos e laudos, os danos físicos e psicológicos sofridos.

A história dele simboliza a dupla condição de atingimento vivida pelo distrito: de um lado, as consequências diretas e prolongadas do desastre-crime de 2015; de outro, novas violações de direitos provocadas pela Barragem Doutor, que, apesar de ter o nível de emergência reduzido em 2025, ainda  mantém a comunidade de Antônio Pereira sob constante ameaça.

DuRio falou ao Jornal A SIRENE sobre o dia em que o chão tremeu sob seus pés e sobre a vida que veio depois, nesta década de luto e luta.

“Nós trabalhávamos na barragem no momento em que ela estourou. O Cláudio trabalhava em outra turma, outra equipe. A turma dele já tinha acabado o serviço e ele ficou trabalhando comigo naquele dia. Eu era o gredista, e ele estava como meu ajudante. Eu senti a barragem tremendo e avisei o pessoal. Aí nós começamos a correr, desesperados, pedindo a Deus pra ajudar.

O Cláudio passou mal na metade do caminho. Conseguimos subir um talude, tinha umas rampas de uns dez metros cada, uns oitenta metros de altura no total. Levamos ele até lá em cima. Acho que ele infartou. Caiu, e a gente começou a fazer massagem cardíaca e respiração boca a boca.

A gente via que ele não estava bem. Todo mundo estava desesperado, falando que ia morrer. Eu coloquei a mão na cabeça e comecei a chorar. Pensei só na família! A barragem descendo do lado, aquele barulho todo.

Uns dias antes, parece que Deus já estava avisando a gente. Nós conversávamos entre amigos: ‘se a barragem romper, pra onde a gente vai?’. Eu dizia: ‘A gente está em cima de uma bomba-relógio’.

“Falei com os meninos: ‘vocês sentiram o chão tremendo?’. Eles disseram: ‘Cê tá ficando doido? Que chão tremendo? Deve ser o trator aí do lado’. Eu falei: ‘Não é, não. É essa barragem, aconteceu alguma coisa’,

Peguei o telefone, o rádio de comunicação e dei um passo pra frente. Quando olhei, uns 10 metros à frente, a barragem já tava estourando. Comecei a gritar: ‘corre! Corre que a barragem tá estourando!’. A gente começou a correr. No meio do caminho, achei que não ia aguentar mais. Pedi: ‘Minha Nossa Senhora da Lapa, Minha Nossa Senhora da Lapa, me ajuda a correr que eu não tô aguentando mais’.

Abriu uma cratera do meu lado, com um tubo puxando tudo. Pra mim, parecia um caminhão guindaste puxando o tubo. Um tratorista passou do meu lado, eu chamei ele no rádio, dei sinal com a mão. Quando olhei de novo, a lama engoliu ele perto de mim.

Depois do rompimento, fui pro psicólogo. Ele me liberou pra voltar a trabalhar. Me mandaram pra Barra Longa, fiquei lá um tempo, mas eu não estava com a cabeça boa. Procurei outra psicóloga e ela disse que eu não estava em condição de trabalhar. Mesmo assim continuei, porque tinha uma filha pequena e uma esposa dentro de casa. Eu fiquei com medo de passar necessidade.

Trabalhei uns cinco, seis meses em Barra Longa. Depois me mandaram de volta pra barragem, pro mesmo lugar em que tudo aconteceu. Comecei a passar mal de novo. Fiquei lá uns três meses e aí mandaram todo mundo embora. Fiquei desempregado, passando aperto. Fui pro garimpo de ouro. Comecei a trabalhar no garimpo até conseguir um emprego na prefeitura, onde estou hoje.

Procurei a Renova pra fazer o cadastro. Perguntaram se eu tinha cartão de auxílio, falei que não. Disseram que eu tinha direito, mas teria que procurar a central da Renova. Fui até lá, pegaram só meus dados e não liberaram nada.

Depois me mandaram pra Cáritas. Fui, fiz entrevista, falei com a advogada, entreguei todos os papéis. Tenho tudo guardado até hoje, protocolos, documentos, apostilas [dossiê], mas nunca ganhei nada, nem um centavo. Nem remédio, nem ajuda. Ninguém procurou saber se eu estava doente, como eu estava. A Samarco não fez nada.” Douglas Garcia (DuRio), morador de Antônio Pereira

* Esta é uma versão estendida do texto de mesmo nome publicado em 05 de novembro de 2025, no Jornal A Sirene. Título inspirado no livro Todo dia a mesma noite: a história não contada da boate Kiss (2018), de Daniela Arbex, que também é autora de Arrastados: os bastidores do rompimento da barragem de Brumadinho, o maior desastre humanitário do Brasil (2022).

Foto em destaque: Gabriel Nogueira/Instituto Guaicuy

 

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