“A luta não pode parar. Nós temos que continuar juntos, unidos. Que nesse próximo ano, possamos ter resiliência. E nunca, em momento algum, deixar que a peteca caia, para que a gente consiga o nosso propósito. Eu estou nessa luta, eu estou num propósito, eu estou positiva para vencer. Eu nasci para vencer e quero vencer!” – Alessandra dos Santos Lopes
Na quinta-feira, 18 de dezembro, aconteceu o último Café com Prosa de 2025, no escritório da Assessoria Técnica Independente de Antônio Pereira. O encontro reuniu mais de 50 pessoas em uma noite marcada por memórias, reconhecimento das conquistas do ano e projeções de esperanças para o futuro.

Foto: Leo Souza/Instituto Guaicuy
O Café com Prosa foi um espaço de pausa e respiro em meio a um ano intenso, atravessado por lutas, mobilizações, vitórias coletivas e fortalecimento da organização comunitária. Ao refletir sobre esse momento, Izabella Resende, gerente do projeto da ATI Antônio Pereira, destacou a importância de olhar para trás juntos:
“Separar esse momento com as pessoas atingidas e fazer essa retrospectiva é valorizar a memória deste ano, trazer a referência dos bons momentos. Esse é um espaço que a gente consegue conferir o significado das coisas. Às vezes a gente olha pra um ano inteiro e tende a lembrar só das situações mais difíceis. Mas quando a gente olha pras fotos e vê e fala: ‘naquele dia eu ri com essa pessoa’, ‘naquele dia a gente conversou sobre algo importante’. Então o registro, a foto e a filmagem, ajuda a gente olhar pra trás juntos! É um aconchego, um carinho que a gente se dá.”

Foto: Leo Souza/Instituto Guaicuy
Perguntada sobre seu desejo para Antônio Pereira em 2026, Izabella declarou que é “fortalecer a Comissão de Pessoas Atingidas, a autoestima dessas pessoas, para que consigam dialogar, se respeitar e seguir construindo juntas. E que o trabalho pericial avance e entregue à comunidade o que ela espera”.
Um dos momentos centrais da noite foi a retrospectiva de 2025, construída a partir de imagens que relembraram marcos importantes da trajetória do ano. As fotos conduziram a comunidade por episódios decisivos: a desmobilização da ATI e o período de incerteza vivido no território, as manifestações organizadas pela permanência da Assessoria Técnica Independente, a vitória que garantiu a continuidade do trabalho, a audiência das guerreiras e a decisão judicial favorável às pessoas atingidas, a assembleia histórica dos garimpeiros tradicionais com mais de 700 participantes e as reuniões do ciclo de formação da Comissão de Pessoas Atingidas, dentre muitos outros.
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Esse olhar para trás não teve o objetivo de apagar as dificuldades, mas de reafirmar que, mesmo em um ano duro, houve avanços concretos e construção coletiva. Reconhecer esses passos ajuda a ressignificar a caminhada e fortalecer os vínculos entre as pessoas.
Ainda durante a noite, foi realizada a entrega dos certificados aos integrantes da Comissão que participaram do ciclo de formação ao longo de 2025, reconhecendo o compromisso e a presença de quem ajudou a fortalecer a organização interna deste coletivo de luta pela reparação integral.

Foto: Leo Souza/Instituto Guaicuy
Tarcísio Morais, integrante da Comissão, fez questão de participar de todas as oficinas ao longo do ano. Ele recebeu o certificado com orgulho e reafirmou que seguirá presente também em 2026. Ao falar sobre seus desejos para o próximo ano, destacou a luta por melhores condições de vida para si e para a comunidade. “Desejo o melhor para todo mundo aqui. Minha casa acabou, eu quero ter a minha própria casa. E continuar indo nas reuniões, trabalhando e cuidando da minha saúde”, afirmou.

Foto: Leo Souza/Instituto Guaicuy
Durante o ciclo de formação, as equipes foram divididas por temas, e Tarcísio escolheu se dedicar às discussões sobre educação e às questões que envolvem as famílias removidas. Na perspectiva dele, esses temas são centrais para o futuro do território. “A educação ajuda muito, ela é muito importante! E junto com os removidos, eu tô aí na luta. E não vou desistir. Entendeu? Não vou desistir”, declarou.
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Outro momento de grande significado foi a entrega do Protocolo Comunitário de Consulta Livre, Prévia, Informada e de Boa-fé da Comunidade Garimpeira Tradicional de Antônio Pereira, impresso e encadernado. O documento, construído coletivamente ao longo do ano, estabelece como a comunidade tradicional deve ser consultada diante de qualquer ação que possa impactar seu modo de vida, o que representa um passo importante na defesa do território, da identidade e dos direitos dos garimpeiros e das garimpeiras tradicionais.

Foto: Leo Souza/Instituto Guaicuy
Durante a entrega, Mayara Pacces, uma das analistas do Instituto Guaicuy que acompanhou o processo de construção do documento, destacou a dimensão histórica dessa conquista. Segundo ela, “o Protocolo representa uma luta muito grande da comunidade”, pois, a partir de agora, qualquer iniciativa que queira atuar no território precisa respeitar as regras definidas pelos próprios moradores. “Não é a empresa que decide como vai consultar. É a comunidade que diz como quer ser consultada e estabelece as regras. Se o Estado não consulta, a ação não pode acontecer no território”, explicou. Para ela, trata-se de um instrumento fundamental de proteção e reconhecimento do território e tradicionalidade da comunidade garimpeira.
Representando as garimpeiras e garimpeiros tradicionais, Ivone Pereira Zacarias recebeu uma cópia do Protocolo e falou sobre a importância do documento para a comunidade. Em sua fala, ela agradeceu à Assessoria Técnica Independente e à participação da própria comunidade, ressaltando que o Protocolo e o laudo antropológico são conquistas coletivas e fundamentais para o futuro. “Esse é um documento muito importante para nós, para os garimpeiros e garimpeiras tradicionais de Antônio Pereira. É uma vitória muito grande ter isso em mãos”, afirmou. Dona Ivone também destacou que o próximo passo da luta será o pedido de certificação, reforçando que, com esses avanços, a comunidade segue mais fortalecida para enfrentar os desafios que ainda virão.

Foto: Leo Souza/Instituto Guaicuy
O Café com Prosa também foi atravessado por momentos de sensibilidade e emoção. As crianças da Ciranda Pereirinha leram suas cartinhas com desejos para 2026, trazendo esperança e leveza ao encontro. Em uma das mensagens, uma criança desejou “um ano repleto de felicidade e união para todos da comunidade de Antônio Pereira”, sintetizando o sentimento coletivo da noite.
As falas das pessoas atingidas deram ainda mais profundidade ao encontro. Alessandra dos Santos Lopes, moradora de Antônio Pereira, descreveu o Café com Prosa como um espaço fundamental para a sobrevivência emocional e coletiva da comunidade: “participar desse evento hoje é maravilhoso. Ter vocês por perto é um gatilho para nossa sobrevivência em Antônio Pereira. Nossa luta não é fácil, chegar até aqui não foi fácil. Tivemos que passar por muitos obstáculos e sabemos que ainda há outros pela frente. Mas juntos, unidos, chegamos até aqui”.

Foto: Leo Souza/Instituto Guaicuy
Ela destacou o encontro como um momento de acolhimento profundo: “esse momento de hoje foi um aconchego. Tudo que estava pesado na nossa alma, a gente descarregou aqui. Através da brincadeira, da conversa, do bingo, da diversão. Isso mexe com a nossa alma, com o nosso interior. Isso tudo que aconteceu, aqui foi um momento extraordinário para nós. Que venham momentos mais apreciados como este. E só agradecer mesmo a Deus por vocês estarem na luta em conjunto conosco. Sempre aí, a todo momento dispostos a nos ouvir, a nos acalentar. Isso é algo que mexe com a nossa alma, com a nossa pureza, nosso interior”.
Ao relembrar sua própria trajetória, Alessandra falou sobre a necessidade de seguir lutando não apenas por si, mas pelas próximas gerações, e declarou seus objetivos para 2026. “A luta não pode parar. Nós temos que continuar juntos, unidos. Que nesse próximo ano, possamos ter resiliência. E nunca, em momento algum, deixar que a peteca caia, para que a gente consiga o nosso propósito. Eu estou nessa luta, eu estou num propósito, eu estou positiva para vencer. Eu nasci para vencer e quero vencer!”, declarou.
A noite seguiu com momentos de convivência, como o bingo comunitário e a entrega dos enfeites de Natal, pequenas casinhas de papel para pendurar nas árvores, simbolizando pertencimento, cuidado e permanência no território.

O último Café com Prosa de 2025 terminou com a certeza de que, apesar das dificuldades, a caminhada segue viva. Entre memória, afeto e luta, a comunidade de Antônio Pereira encerrou o ano reafirmando que sonhar coletivamente também é uma forma de resistir.
Foto de capa: Leo Souza/Instituto Guaicuy
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