Instituto Guaicuy

Que jornalismo é esse?

5 de fevereiro, 2026, por Hariane Alves

Antes do rompimento da Barragem de Fundão, em 2015, pouco se falava sobre barragens de rejeito na imprensa brasileira, sobre as violações de direitos promovidas pela mineração predatória ou sobre a luta das comunidades atingidas. Dez anos depois, com duas barragens rompidas, 290 mortes provocadas pelos crimes em Mariana (2015) e Brumadinho (2019), e mais de 50 municípios atingidos nos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia, o jornalismo da imprensa comercial ainda produz discursos que esvaziam, normalizam e despolitizam essa pauta.

Por que uma barragem considerada segura rompeu? Quais as reais responsabilidades das mineradoras, dos municípios/estados, das entidades de fiscalização e das instituições de justiça no rompimento? Por que ninguém foi preso? Por que, 10 anos depois, ainda existem barragens à montante em processo de descaracterização? Por que há tantas pessoas sequer reconhecidas como atingidas? E por que um acordo de repactuação foi firmado sem a participação efetiva das populações diretamente afetadas? 

Foto: Leo Souza/Instituto Guaicuy

Se existe um limite operacional ao cobrir desastres-crimes, este não pode ser isento de responsabilidades. A jornalista e escritora Fabiana Moraes respondeu em entrevista que “o discurso do jornalismo e da objetividade detém inúmeras violências, respaldadas pelo manto da objetividade, com a justificativa de ‘eu só reportei o que estava lá’ ou ‘eu só coloquei o que a pessoa disse’”. 

Para além de todas as violências e violações de direitos que as pessoas atingidas continuam sofrendo por parte das mineradoras e das instituições de justiça, suas histórias continuam sendo narradas em reportagens que, muitas vezes, normalizam o rompimento e enquadram o crime como uma mera tragédia ou, pior, como um acidente. Não foi acidente. É preciso nomear corretamente.  

Em 10 anos de existência, celebrado nesta edição especial, o Jornal A Sirene deixa pistas de um jornalismo responsável e referenciado pelo que, de fato, importa: histórias reais, de pessoas reais tratadas com respeito e não como “celebridades da desgraça”. Um jornalismo popular e engajado que faz a diferença. 

“Se for para destruir uma forma de jornalismo, então que seja!” (Fabiana Moraes, 2025)

 

Por Hariane Alves

Foto de capa: Leo Souza/Instituto Guaicuy

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