Antes do rompimento da Barragem de Fundão, em 2015, pouco se falava sobre barragens de rejeito na imprensa brasileira, sobre as violações de direitos promovidas pela mineração predatória ou sobre a luta das comunidades atingidas. Dez anos depois, com duas barragens rompidas, 290 mortes provocadas pelos crimes em Mariana (2015) e Brumadinho (2019), e mais de 50 municípios atingidos nos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia, o jornalismo da imprensa comercial ainda produz discursos que esvaziam, normalizam e despolitizam essa pauta.
Por que uma barragem considerada segura rompeu? Quais as reais responsabilidades das mineradoras, dos municípios/estados, das entidades de fiscalização e das instituições de justiça no rompimento? Por que ninguém foi preso? Por que, 10 anos depois, ainda existem barragens à montante em processo de descaracterização? Por que há tantas pessoas sequer reconhecidas como atingidas? E por que um acordo de repactuação foi firmado sem a participação efetiva das populações diretamente afetadas?

Foto: Leo Souza/Instituto Guaicuy
Se existe um limite operacional ao cobrir desastres-crimes, este não pode ser isento de responsabilidades. A jornalista e escritora Fabiana Moraes respondeu em entrevista que “o discurso do jornalismo e da objetividade detém inúmeras violências, respaldadas pelo manto da objetividade, com a justificativa de ‘eu só reportei o que estava lá’ ou ‘eu só coloquei o que a pessoa disse’”.
Para além de todas as violências e violações de direitos que as pessoas atingidas continuam sofrendo por parte das mineradoras e das instituições de justiça, suas histórias continuam sendo narradas em reportagens que, muitas vezes, normalizam o rompimento e enquadram o crime como uma mera tragédia ou, pior, como um acidente. Não foi acidente. É preciso nomear corretamente.
Em 10 anos de existência, celebrado nesta edição especial, o Jornal A Sirene deixa pistas de um jornalismo responsável e referenciado pelo que, de fato, importa: histórias reais, de pessoas reais tratadas com respeito e não como “celebridades da desgraça”. Um jornalismo popular e engajado que faz a diferença.
“Se for para destruir uma forma de jornalismo, então que seja!” (Fabiana Moraes, 2025)
Por Hariane Alves
Foto de capa: Leo Souza/Instituto Guaicuy
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