Instituto Guaicuy

Tecendo Futuros fortalece a juventude atingida

4 de maio, 2026, por Natália Ferraz

Se depender dos jovens atingidos pelo desastre-crime da Vale em Brumadinho, não vão faltar ideias para a retomada socioeconômica de suas comunidades. Em abril, foi iniciado o curso Tecendo Futuros, que busca fortalecer a capacidade de elaboração de projetos comunitários e aproximá-los do processo de reparação a partir de uma abordagem lúdica e acessível. 

Escolas de Biquinhas, Curvelo, Felixlândia, Morada Nova de Minas, Paineiras e Três Marias já receberam a equipe do Guaicuy, que conduz a atividade em duas etapas: primeiro há uma apresentação retomando o contexto do rompimento da barragem e os objetivos do Anexo 1.1 do Acordo Judicial de Reparação, que trata de projetos de demandas das comunidades atingidas e linhas de crédito; depois, os estudantes se dividem em grupos para jogar um jogo de tabuleiro educativo. 

A formação os leva a analisar seus territórios, refletindo sobre potencialidades, desafios, possíveis soluções e viabilidade técnica. Ao final, propõem um projeto fictício para as suas comunidades, com base no andamento das discussões. Segundo Taís Sousa, supervisora do escritório de Projetos Socioeconômicos do Guaicuy, os alunos apresentaram projetos que podem fomentar a cultura, a economia local e, principalmente, trazê-los para mais perto no Anexo 1.1 e do acompanhamento dos Conselhos Locais e Regionais na execução dos futuros projetos a serem implementados. 

Jogo em Paineiras. Foto de Fabiano Lana/Guaicuy

Veja as fotos de Angueretá

Veja as fotos de Três Marias

Veja as fotos de Paineiras

Projetos pensados pelos jovens

Rafael Afonso participou do curso na Escola Estadual José Ermírio de Morais, em Três Marias: “achei que foi uma interação muito legal e um trabalho pra abrir mais a mente dos alunos, pra gente pensar em projetos futuros pra fazer uma melhoria na cidade. Querendo ou não, às vezes a gente precisa entrar em debate pra discutir sobre o que a cidade está precisando e eu acho que esse jogo ajudou bastante nisso”, conta.

Para Maria Júlia de Araújo, da Escola Estadual Celestino Nunes, em Paineiras, o curso foi importante para que ela e seus colegas pudessem expor suas ideias e para tentar melhorar o dia a dia na sua comunidade. “A gente pensou mais na área do lazer, principalmente para os jovens. Meu grupo colocou em questão a ideia de criar alguns jogos, seja jogos eletrônicos, seja até mesmo quadras, pra ter um final de semana mais divertido com a família e os amigos”, afirma.

Jogo em Três Marias. Foto de Paulo Marques/Guaicuy

O grupo de Anna Lívia Campos, que participou do Tecendo Projetos na Escola Estadual Antonina Mascarenhas Gonzaga, da comunidade de Angueretá, em Curvelo, explicou a motivação para o projeto do seu grupo: “Aqui onde a gente mora não tem um lugar bom para trabalho, a gente não consegue achar empregos bons e a gente acaba tendo que ir para outras cidades para a gente fazer cursos ou até mesmo trabalhar. Então nós desenvolvemos o projeto da cooperativa para que principalmente os jovens consigam administrar já uma empresa”, exemplifica Anna Lívia. 

A discussão sobre empregabilidade também esteve orientou o grupo de Yara Pereira, que estuda na mesma escola: “O nosso projeto pensou na produtividade dos jovens e em formas para que eles permanecessem na comunidade — não formassem e fossem procurar oportunidades fora”, explica.

Em uma perspectiva diferente, Gael Alexander Fonseca conta que o projeto do seu grupo foi a realização de uma vaquejada, o que proporcionaria lazer para a comunidade de Angueretá, empregos e circulação de dinheiro com barraquinhas. Ele, que já está no terceiro ano do ensino médio, achou que a atividade contribuiu, de forma divertida, na ampliação de horizontes sobre o que eles podem vir a fazer: “A gente está cada vez mais perto de ter nossa fase adulta e ajudou muito a gente a tentar criar essa visão do nosso futuro”, conta.

Relação com o ambiente escolar

Regina Santos, professora que acompanhou o Tecendo Futuros em Paineiras, disse que os alunos ficaram ativos com a atividade e que projetos como esses os ajudam a participar de discussões e momentos que ocorrem fora do ambiente escolar. Ela também destaca como a dinâmica ajuda a materializar o aprendizado: “Eles pensaram na questão da saúde, na questão do esporte, no saneamento básico. Eu achei super bacana, eu fiquei comovida. Quando eu vi as ideias dos projetos, eu falei: ‘nossa, a gente está conseguindo chegar onde a gente está querendo’”.

Jogo em Angueretá. Foto de Daniela Paoliello/Guaicuy

Já Vânia Guerra, vice-diretora da Escola Estadual José Ermírio de Morais, em Três Marias, relatou que a questão do atingimento faz parte do cotidiano dos alunos, principalmente daqueles que são ribeirinhos, e isso se reflete diretamente na escola. “A gente espera assistir a alguns desses projetos, e o nosso sonho é que realmente eles sejam colocados em prática. Algumas propostas muito boas e partindo dos jovens, que são o nosso futuro”, diz Vânia.

Expectativas com a atividade

Para Taís Sousa, as experiências têm dado espaço para a criatividade dos jovens em relação às ideias para o fortalecimento econômico das comunidades, que é o principal objetivo do Anexo 1.1. “A gente teve projetos ligados a festejos tradicionais, como a vaquejada. Teve incentivo a trilhas de ecoturismo, projetos de cooperativas econômicas com fortalecimento de mão de obra local e também dos insumos que são produzidos nas comunidades atingidas”, relata.

Ela explica que os projetos de demanda das comunidades têm uma previsão de execução de até 10 anos, então é necessário que os jovens já comecem a se envolver e que eles tenham conhecimento sobre a gestão orçamentária de um projeto. “É importante que eles se envolvam, tenham engajamento comunitário e possam ser os futuros representantes das suas comunidades no desenvolvimento de projetos do Anexo 1.1”, reforça.

Jogo em Angueretá. Foto de Daniela Paoliello/Guaicuy

Thaline Campos, analista do Guaicuy que acompanhou o curso em Três Marias, também achou a atividade muito produtiva. “Os estudantes conseguiram, ao mesmo tempo, se envolver, formar equipes, trabalhar em conjunto, e também aprender a forma de se estruturar um projeto comunitário, que é uma das vertentes do Anexo 1.1”. 

Ela destacou que desenvolver essas atividades de trabalho em equipe é fundamental para a luta pela reparação e que foi muito prazeroso ver os jovens engajados e se divertindo: “a reparação tem gerado frutos de consciência e de envolvimento na juventude que não vai deixar essa luta de maneira alguma apagar. A gente entende e espera que eles carreguem esse mesmo sentimento, essa mesma postura para outros espaços de luta pela reparação”, afirma. 

Hoje, os familiares, os pais, os tios, os avós, os irmãos mais velhos estão aí na luta e daqui a pouco esses jovens que a gente está plantando a sementinha e que carregam desde tão novos os impactos desse crime, poderão com bastante propriedade seguir a luta e o legado em busca da reparação justa e integral”, espera Thaline.

Imagens de Daniela Paoliello, Fabiano Lana e Paulo Marques (Guaicuy)

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