Pelo terceiro ano consecutivo a comunidade de Antônio Pereira leva ao Instituto Guaicuy, Assessoria Técnica Independente da população atingida pelo risco de rompimento e pelas obras da Barragem Doutor, da Vale, denúncias de descaso da mineradora com os imóveis engolidos pela Zona de Autossalvamento (ZAS). Trata-se da área próxima à barragem e que seria imediatamente atingida em caso de rompimento da estrutura, de onde famílias sofreram deslocamento compulsório e onde, hoje, proliferam-se pragas urbanas e animais peçonhentos como ratos, baratas, mosquitos transmissores de doenças, cobras e escorpiões.
ZAS em Antônio Pereira parece cena de guerra e tem cheiro de morte
Nossa equipe de Comunicação Social foi à campo e conversou com três mulheres atingidas: Geralda Madalena de Souza, 80 anos, Leislier Maria da Conceição Alves Torres, 56 anos e Danielle Ramos Soares, 25 anos. Três mulheres de diferentes gerações, mas que lidam com os danos causados pelo descaso da Vale com os imóveis situados na área de risco que a própria mineradora gerou na comunidade.
Ratos e cobras se proliferam em escombros abandonados pela Vale
Moradora de Antônio Pereira desde 1971, dona Geralda conta sobre a tormenta causada por ratos que invadem a sua casa vindos do lote vizinho, que se encontra na ZAS da Barragem Doutor e, por isso, está sem moradores. “Nossa senhora, misericórdia! De noite o rato ia para lá e para cá, subindo no guarda-roupa, descendo, andando no sofá. Aí eu fiquei sem dormir e a minha neta que estava comigo também… Acho que os bichos gostam de andar de noite, aí pulam por cima do muro pro meu terreiro. É muito rato, até gambá tem… Tem cobra nesse bambu, eu vi sim. Vi uma cobra um dia que o menino até matou ela ali, porque é muito brava”, relata a moradora.

Foto: Gabriel Nogueira/Instituto Guaicuy
Dona Geralda relembra a vida quando o genro e os netos moravam ao lado. “O Milton, dono dessa casa, e os filhos dele tudo moravam juntos, eram seis morando aqui com ele. Era pertinho e era boa a casa, ele reformou ela toda. Aí depois que ele pôs o piso tudo novo, precisou tirar eles da casa. Eles mexeram com um negócio aí de Justiça e tiraram eles”, relata a moradora.
O caso é explicado por Danielle, que é neta de dona Geralda e removida da casa ao lado junto com o pai e os irmãos. A jovem relata que em 2021 o imóvel da família já estava na ZAS: “desde a primeira mancha de inundação o lote já estava na mancha. Tirou todo mundo, a Defesa Civil veio, fez o mapa e disse que a gente precisava ser removido, mas a Vale não removeu. Aí depois começou a falar que o imóvel não estava mais em risco na nova mancha, mas mesmo assim, na hora que a gente foi ver a mancha ainda estava pegando o terreno”.
Após dois rompimentos de barragens supostamente “seguras”, o primeiro em Mariana em 2015 e o segundo em Brumadinho em 2019, a família sentiu medo e exigiu a remoção. “E nisso, meu pai ficou preocupado, porque igual eu falei com os advogados, que pode ser uma hora ou outra que a gente está lá embaixo e a barragem estoura, sabe? Esse era o medo do meu pai. Aí meu pai falou assim: ‘Então compra o lote todo já que é da ZAS’, mas a Vale não quis também. Então assim, a gente ia perder de qualquer forma o terreno. E aí meu pai entrou na Justiça, foi só então que fomos removidos, mas por causa da Justiça, não porque a Vale quis”, explica Danielle.
Apesar de entender que a remoção foi pela segurança da família, dona Geralda lamenta a perda da vizinhança com o genro e os netos. “Achei ruim, porque eu gosto muito deles aqui do lado. Depois que eles foram embora a casa não ficou muito tempo inteira não, depredaram tudo! Tiraram as portas, tiraram as janelas, tiraram tudo. E ficou desse jeito aí”, lamenta a avó.
Danielle conta que a família reclamou do descaso da Vale com o imóvel, mas que a única medida tomada pela mineradora foi tapar com blocos as portas e janelas para impedir a passagem de pessoas. “Só que deu muito bicho: cobra, rato, muitos bichos ali, aranha. Aí tem minha avó aqui idosa já, meu tio do outro lado também com criança na casa. O pessoal da Vale não faz a limpeza… Eles falam que não está no mapa deles para limpar. Então nunca foi limpo, só fecharam mesmo a casa que virou um lixão”.

No período de chuva tudo fica pior, com a proliferação de mosquitos transmissores de doenças como dengue, zika e chikungunya. “A casa está sem telhado. O terreno foi acabando sem cuidado, então a casa foi caindo. Já caiu metade, ali onde que era meu quarto caiu já. Ali para ter mosquito aumentou bem mais porque tem muito mato. A gente já pediu limpeza pra Vale, pediu também na prefeitura, mas sem sucesso”, desabafa a jovem.
Desde o dia 14 de abril de 2020 uma decisão judicial determina, entre outras as ações emergenciais, “a adoção de providências, no prazo de 5 (cinco) dias, para a segurança dos imóveis desocupados contra saques e roubos, ainda que remotamente e/ou com a instalação de estruturas de segurança nas áreas de entorno das áreas desocupadas”.
Vão-se os vizinhos, fica o descaso
Nascida na cidade de Raul Soares, Leislier escolheu a Vila Residencial Antônio Pereira para ser seu lar. A paz, a comunidade unida e as belezas naturais fizeram com que ela sonhasse com a vida nesta vizinhança e, para ela, viver ali foi, por anos, a realização desse sonho. Tudo mudou com a consciência do risco causado pela Barragem Doutor. “A gente só ouviu barulho de caminhão nas madrugadas, durante a noite, mas não sabia o que era. Até que nós descobrimos que era uma barragem que estava sendo aumentada (alteada). Aí acabou o sossego, nós já passamos a viver tensos”, relembra ela. Mas, segundo ela, tudo piorou no final de 2019. “Foi onde começou a ter o problema com a barragem, houve as remoções e aí começou todo o nosso pesadelo, não só meu e da minha família, mas de todos nós moradores aqui da Vila, que fomos ficando sem nossos vizinhos”.

O mais difícil hoje, para ela, é o isolamento comunitário, uma vez que se tornou a única moradora da rua. “Eu fiquei sozinha aqui na esquina. Então o risco de assalto hoje é muito grande. O tanto de rato na minha casa está insuportável. Já apareceu cobra na minha garagem. Dá pra ver que só tem mato aos arredores. Então a nossa alegria, a nossa tranquilidade hoje já não existe mais”. Entre os danos, a perda do sono pelo medo é o que ela mais destaca: “Eu não consigo dormir tranquila sabendo que eu posso, de repente, ter que sair com minha família correndo, se é que vai dar tempo. Porque eu tenho seis segundos no caso de rompimento para pegar meu marido, os meus dois filhos, meus dois cachorros. Será que eu conseguiria fazer isso a tempo?”, questiona Leislier.
Saúde mental às margens do colapso
Isolamento comunitário, medo, convivência com pragas e animais peçonhentos, saúde mental comprometida e sono precário. A lista de danos na vida da família de Leislier, causados pelo risco de rompimento e pelas obras na barragem da Vale, não acaba por aí. Seu esposo e um dos dois filhos tomam remédios controlados para lidar com as crises psiquiátricas potencializadas por esse cenário de guerra em que a família está. “A Vale fala que a questão da minha saúde não tem nada a ver, nem a questão da doença do meu esposo, quando tem um laudo do psiquiatra pedindo para nos remover daqui desde quando houve as primeiras remoções, porque já estava afetando muito a saúde do meu esposo”. O descaso da mineradora fica explícito na devolutiva dada à família. “A resposta que eu tive é que o problema de saúde do meu esposo é problema dele, que o problema da Vale seria só com a mancha, com quem estava na mancha e que nós não estávamos na mancha de inundação. Disse que nós não estávamos correndo risco nenhum”, nos conta indignada.
Nossa equipe perguntou à gerência de Vigilância em Saúde do município de Ouro Preto se receberam alguma demanda a respeito da limpeza dos imóveis (lotes) cujas famílias foram removidas em razão da Zona de Autossalvamento e ainda quais medidas as famílias vizinhas, que lidam com essa situação da infestação de pragas vindas da ZAS, podem tomar para resolver o problema. A gerência respondeu apenas que a orientação oficial da Vigilância em Saúde do município é que a população faça a denúncia no portal da ouvidoria da Prefeitura Municipal de Ouro Preto.
Os telefones da ouvidoria são: 0800 7890002 ou 31 99752-6537 (WhatsApp)
Clique aqui e faça sua denúncia online
O canal de denúncias da Vale é 0800 285 7000 (WhatsApp)
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