Encontros discutiram o Cadastro realizado pela FGV e reuniram moradores de quatro regiões do distrito, além de pessoas removidas da Zona de Autossalvamento da Barragem Doutor
“Eu fui pra Antônio Pereira em 1999 e eu nadava numa cachoeira que tinha lá no pé da serra. Nadava na cachoeira da Vila. Eu pescava no rio que corria ali pra baixo e a gente foi proibido dessas coisas aí…”, conta Luiz Carlos Silva, morador de Antônio Pereira removido da Zona de Autossalvamento (ZAS) da Barragem Doutor. O relato sobre as mudanças no acesso aos espaços naturais do território foi um dos muitos compartilhados durante a terceira rodada de reuniões de núcleos comunitários de 2026, que contou com a participação de 304 pessoas atingidas para discutir os danos vivenciados e o Cadastro que tem sido realizado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), desde o dia 27 julho.
Ao longo de cinco encontros, realizados pela ATI Antônio Pereira entre os dias 20 e 26 de agosto, moradores de quatro regiões do distrito e pessoas removidas da ZAS refletiram sobre os temas presentes no questionário do Cadastro aplicado pela Fundação. A partir deles, as pessoas atingidas puderam discutir coletivamente os danos vivenciados, compartilhar experiências e apresentar dúvidas sobre a realização das entrevistas, etapa importante do processo de reparação integral.
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Foto: Leo Souza/Instituto Guaicuy
Ao percorrer os temas abordados pelo Cadastro, os relatos mostraram como os danos se relacionam a diferentes dimensões da vida das pessoas atingidas. Luiz Carlos contou, por exemplo, que interrompeu uma obra que fazia na própria casa por causa da insegurança relacionada à barragem.
“Eu tava mexendo numa obra na minha casa. Eu falei: ‘Eu vou investir um dinheiro na minha casa que a gente não sabe o que pode vir a acontecer com essa barragem de uma hora pra outra’. Aí eu larguei aquilo pra lá. Então, acaba até o sonho da gente, é parado por causa de uma coisa dessa. Porque, assim, eu estava mexendo, eu tinha um sonho de ter minha casa toda arrumadinha”, declarou Luiz Carlos. Na sequência, ele relacionou a interrupção desse projeto a impactos que não podem ser medidos apenas financeiramente. “E mais os danos psicológicos que ficam em cada um, porque não é só o dinheiro, né?”, completou.
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Durante as atividades presenciais, mães, pais e responsáveis também puderam participar das discussões enquanto as crianças eram recebidas pela Ciranda, espaço preparado pela ATI com atividades específicas para o público infantil. As pessoas participantes também receberam kits e pastas preparados especificamente para cada núcleo, com materiais impressos sobre o processo de reparação integral, a atuação da FGV e o Cadastro.

Foto: Ellen Barros/Instituto Guaicuy

Foto: Ellen Barros/Instituto Guaicuy
Cadastro em pauta
O Cadastro está sendo realizado pela FGV, responsável pela perícia judicial na Ação Civil Pública movida contra a Vale no caso dos danos causados pela Barragem Doutor. O objetivo é levantar os danos individuais e coletivos vivenciados pelas famílias em decorrência do risco de rompimento e das obras de descaracterização da barragem.
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Durante os núcleos, a ATI apresentou os diferentes temas abordados pelo questionário e utilizou esses conteúdos como ponto de partida para a discussão coletiva. A partir dos 16 eixos temáticos do Cadastro, as pessoas atingidas foram convidadas a relacionar as perguntas às situações vivenciadas no território e aos diferentes danos experimentados ao longo dos últimos seis anos. As discussões mostraram também como um mesmo dano pode repercutir sobre diferentes aspectos da vida cotidiana. Entre as situações abordadas estiveram a perda de renda e de atividades informais, perda de soberania alimentar, os impactos sobre a saúde e o aumento do trabalho doméstico e de cuidado diante do adoecimento de familiares.

Foto: Gabriel Nogueira/Instituto Guaicuy
Também apareceram relatos sobre os efeitos da poeira, a perda de hortas e do acesso a alimentos produzidos pelas próprias famílias, as mudanças na qualidade e disponibilidade da água e as transformações em espaços utilizados pela comunidade. As pessoas participantes falaram sobre dificuldades de acesso a áreas de lazer, igrejas, escolas e locais de trabalho, além dos impactos sobre o convívio comunitário, a sensação de segurança e os projetos de vida.

Foto: Gabriel Nogueira/Instituto Guaicuy
Os impactos sobre a saúde mental também apareceram entre os relatos compartilhados pelas pessoas removidas. Bruno Saback resumiu essa experiência durante a reunião: “A tristeza profunda é nossa companheira. Isso é viver todo dia deprimido e ver a Vale nos matando”.
Entre as questões levantadas durante os encontros esteve também a capacidade do questionário de contemplar as diferentes situações vivenciadas pelas pessoas atingidas, especialmente as especificidades de quem foi removido da ZAS. Elizângela Quintão, uma das pessoas que sofreram deslocamento compulsório , chamou atenção para as diferenças entre a realidade de quem permanece em Antônio Pereira e de quem já não vive no território.

Foto: Leo Souza/Instituto Guaicuy
“Quem tá no território realmente vai ter essa sensação que tá sendo 100% atendido, porque ele faz perguntas só de quem tá morando lá no território ainda. Agora, quem foi removido ficou totalmente esquecido, vamos dizer assim, naquelas perguntas. Então, isso vai prejudicar ainda mais o nosso grupo se a gente não tiver essa visão […] que somos todos da mesma situação, porém com realidades distintas”, afirmou Elizângela.
Ao falar sobre as expectativas em relação à reparação, Luiz Carlos defendeu que eles não cedam na busca por seus direitos. “A gente não pode se sujeitar a viver de migalhas de uma empresa rica igual à Vale. A gente é merecedor de mais, pelos danos que eles causam não só na natureza, mas na vida da gente.”
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