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“A gente criou os filhos para o mundo, mas eles foram mais cedo”. Rosana Oberhofer
Um dos desafios enfrentados por parte das comunidades atingidas pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho é conseguir com que os jovens continuem vivendo no local após entrarem na chamada “idade produtiva” — ou seja, quando já podem trabalhar — algo que o Anexo 1.1 do Acordo de Reparação pode ajudar a resolver.
Há localidades que sofrem com a falta de oportunidades de emprego e de geração de renda, já que o desastre-crime afetou uma grande quantidade de atividades profissionais, especialmente aquelas ligadas à pesca e ao turismo, agravando o êxodo já existente. Segundo Júlia Barbosa, assessora do Instituto Guaicuy, a insegurança hídrica ainda comprometeu a continuidade da produção agrícola e fez com que o comércio e outros setores também fossem atingidos, seja pela contaminação das águas, seja pelo estigma gerado pelo desastre.
Pela necessidade de trabalhar para se sustentar e até mesmo de ajudar a família financeiramente, os jovens acabam se mudando em busca de trabalho, enfraquecendo os laços familiares e a identidade local.
A implementação do Anexo 1.1 pode ajudar a mudar essa realidade, criando novas possibilidades para que as famílias permaneçam unidas e os jovens possam decidir onde desejam viver. Esse anexo é uma das partes do Acordo Judicial de Reparação, firmado em fevereiro de 2021 entre a Vale e o Poder Público para reparar comunidades dos 26 municípios atingidos pelo rompimento da barragem.
Ele determina que a mineradora destine R$ 3 bilhões para projetos solicitados pela população e acesso a linhas de crédito e microcrédito, com o objetivo de apoiar as comunidades que sofreram danos coletivos. Esses recursos serão destinados para essas a melhorar as condições de vida e promover o desenvolvimento local.
Os Projetos de Demandas das Comunidades Atingidas e as Linhas de Crédito e Microcrédito fazem parte do Programa de Reparação Socioeconômica do Acordo. São projetos para fomentar a geração de trabalho e renda, o acesso à cultura, esporte e lazer, à qualidade de vida, para reparar uma série de problemas vivenciados pelas pessoas atingidas após o rompimento da barragem da Vale. Por meio de um edital, um consórcio liderado pela Cáritas foi selecionado para atuar como Entidade Gestora de parte dos recursos do Anexo 1.1 — 10% do valor, o que equivale a cerca de R$ 300 milhões.
Ao longo do primeiro semestre de 2024, a Entidade Gestora realizou uma série de ações para ouvir as comunidades atingidas de todas as cinco regiões da Bacia e realizar uma construção participativa da Proposta Definitiva para a administração dos recursos. Essa proposta foi aprovada pelo juiz Murilo Silvio de Abreu em outubro, mas o trabalho, que prevê 24 meses de atuação, ainda não foi iniciado.
“O Anexo 1.1 surge como uma esperança, um instrumento para a reparação dos danos coletivos sofridos por essas comunidades, além de abrir possibilidades para uma transição econômica. Para a juventude, ele representa uma oportunidade importante, pois essa transição pode viabilizar a permanência das famílias em seus territórios, preservando suas relações culturais e tradicionais com o ambiente e suas atividades. Isso fortalece o desenvolvimento local e pode evitar que os jovens precisem sair de suas regiões não por escolha, mas por necessidade”, explica a assessora do Guaicuy.
Vanessa Andrade, da Comissão dos Atingidos de Paineiras, Poções e Atoleiro (Cappa), mora em Poções (Paineiras), uma das comunidades atingidas. Para ela, a efetivação do Anexo 1.1 traria um impacto significativo na vida dos jovens. “Isso pode mudar a realidade de muita comunidade igual à minha. (…) Ia pôr o rapaz que às vezes tá em casa só jogando videogame para trabalhar, a moça que às vezes tá em casa só mexendo no celular pra trabalhar também. Iam cascar mandioca, que dá muito trabalho, precisa de muita mão de obra… Mas cadê o Anexo 1.1 pra nós?”, questiona.
Vanessa ainda destaca que, das 170 pessoas que vivem em Poções e nas fazendas no entorno, cerca de 50% são idosas. “Daqui 5 ou 6 anos, se não houver investimento, quem vai morar aqui? No mais tardar daqui uns dez anos, metade da população vai acabar”, alerta. “A gente via nesse Anexo 1.1 uma forma de injetar dentro da minha comunidade uma espécie de investimento para que as pessoas que moram aqui ficassem, para que os rapazes como o meu, que moças como a minha, ficassem aqui. Mas se não tiver isso, não só em Poções, mas na maioria dessas comunidadezinhas pequenas, não vai ficar ninguém”, completa.
Rosana Oberhofer, da Comissão São Marcos e Santa Cecília (Pompéu), lamenta que a falta de oportunidades tenha afastado os jovens da comunidade. “Uns saíram, foram trabalhar fora. Os meus meninos, o filho do Seu Geraldo… Todo mundo foi embora por causa disso”. Ela ainda fala sobre como a separação da família impacta emocionalmente. “Foi muito triste, porque a gente é muito unido. Pra gente se separar dos filhos, é muito triste”.
Esses relatos mostram que a implementação do Anexo 1.1 não é apenas uma questão financeira. “Se bem implementado, o Anexo 1.1 tem o potencial de oferecer alternativas econômicas que permitam às comunidades manter uma vida social, cultural e econômica ativa, mais próxima do que viviam antes do rompimento”, finaliza Júlia Barbosa. Trata-se de preservar as comunidades, criar condições para que jovens possam viver perto de suas famílias e fortalecer a continuidade de tradições e modos de vida que caracterizam essas localidades.
Imagem: Fabiano Lana/Guaicuy
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