Os encontros resgataram a história da Comissão, definiram novas diretrizes organizativas e estruturaram núcleos temáticos de trabalho.
A Comissão de Pessoas Atingidas de Antônio Pereira deu início, em agosto de 2025, a um importante ciclo de formação com foco na reorganização interna e no fortalecimento da própria autonomia. Com a chegada de novos integrantes e a ampliação das frentes de atuação do grupo, surgiu a necessidade de revisar o funcionamento da organização a longo prazo.
O ciclo prevê seis encontros formativos até novembro, intercalados com as reuniões ordinárias da Comissão que ocorrem mensalmente. Nas três primeiras reuniões, realizadas de forma híbrida para garantir a participação de integrantes removidos das Zonas de Autossalvamento (ZAS) que não residem mais no distrito, a Comissão discutiu sua identidade, função política e caminhos para uma organização mais estruturada e representativa.

Foto: Gabriel Nogueira/Instituto Guaicuy
A primeira formação teve como foco o resgate histórico da Comissão, que existe desde antes da atuação da ATI no distrito.
“A primeira coisa é a gente fazer esse resgate histórico. Entender o que é essa Comissão, de onde ela veio, qual é o papel dela. E com isso, pensar também como que a gente se organiza, como a gente traz novas pessoas para dentro da Comissão, como a gente pensa essa continuidade mesmo com a mudança de cenário”, explicou Stennyo, analista sênior da equipe de Direitos e Participação Social (DPS) da Assessoria Técnica Independente de Antônio Pereira.

Foto: Gabriel Nogueira/Instituto Guaicuy
A segunda formação tratou da organização temática das atuações da Comissão em núcleos setoriais: saúde, educação, meio ambiente e barragem, ZAS e Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs). Essa setorização visa tornar o trabalho mais funcional, garantindo que as diferentes áreas de interesse da comunidade tenham acompanhamento permanente.
Também foi discutida a importância de definir funções internas, como secretariado, relatoria e comunicação, e registrar as decisões por meio de livros de ata, como parte do fortalecimento da organização cotidiana.
A terceira formação marcou o início dos exercícios práticos com a Comissão. A metodologia do encontro consistiu em debater os temas de saúde e educação, identificando os principais problemas dessas áreas no território e discutindo quais deles são de responsabilidade da Comissão de Pessoas Atingidas. Nas próximas reuniões, também serão feitos exercícios práticos com os outros temas.
A cada encontro, são construídas ferramentas e reflexões que estimulam o protagonismo das pessoas atingidas e garantem condições reais de continuidade do trabalho coletivo.
Para Izabella Resende, Gerente da ATI Antônio Pereira, “para efetivar a participação informada é fundamental possibilitar para a Comissão cursos e processos formativos que contribuam para a organização coletiva em busca da reparação integral. Após a revitalização da Comissão, agora a ATI trabalha para fortalecer essas referências comunitárias”, destacou.

Foto: Gabriel Nogueira/ Instituto Guaicuy
A criação da Comissão de Pessoas Atingidas de Antônio Pereira está vinculada às primeiras reações comunitárias frente aos riscos e impactos provocados pela Barragem Doutor, principalmente após o desastre-crime da Vale em Brumadinho, em 2019. A mobilização inicial partiu das próprias lideranças locais, preocupadas com a segurança, o direito à informação e a proteção de suas famílias e do território, consolidando a Comissão como uma instância de articulação coletiva, ponto de referência para as demandas da comunidade junto aos órgãos públicos e empresas envolvidas. Com o início do trabalho da ATI no território, essa instância foi reconhecida como interlocutora legítima da população atingida pelo Ministério Público de Minas Gerais, passando a contar com apoio técnico para fortalecer sua organização, ampliar sua representatividade e qualificar sua atuação.
Comissão é união e força para a comunidade de Antônio Pereira
Confira a cartilha sobre “Organização e Luta Coletiva”
Hoje, a Comissão é composta por moradores e moradoras de diferentes regiões do distrito, incluindo pessoas removidas da Zona de Autossalvamento (ZAS) e novos integrantes engajados na defesa de direitos.
Elizângela Quintão, que também é integrante da Comissão de Pessoas Atingidas de Antônio Pereira, citou o fato de as reuniões híbridas viabilizarem uma participação ainda mais efetiva da comunidade. “A modalidade de reunião híbrida tem sido inclusiva, possibilitando a participação das pessoas removidas que estão em moradias temporárias fora do território. Isso garante o acesso às informações do andamento, dos desdobramentos da Ação Civil Pública (ACP), que são analisadas e repassados pela equipe multidisciplinar da Assessoria Técnica e também os relatos e sugestões de encaminhamentos para elucidar os danos causados pelas remoções das ZAS e obras de descaracterização da Barragem Doutor”, contou Elizângela.
Nos encontros que ainda serão realizados até o encerramento do ciclo de formação, a Comissão de Pessoas Atingidas de Antônio Pereira seguirá aprofundando seus conhecimentos e práticas organizativas. A próxima oficina será voltada à construção e formalização de documentos, como atas, listas de presença, ofícios e cartas, que são ferramentas essenciais para o registro e a comunicação das decisões coletivas.
Na sequência, a Comissão terá uma oficina dedicada ao uso do WhatsApp, e-mail e redes sociais como instrumentos de articulação, mobilização e comunicação com a comunidade. A proposta é compreender o potencial dessas ferramentas e fortalecer a autonomia das/os integrantes na gestão desses canais.
Por fim, o encerramento do ciclo será marcado por um momento de confraternização entre as/os participantes e entrega dos certificados de conclusão do curso de organização da Comissão.
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