Na madrugada de 25 de janeiro, ocorreu o derramamento de 263 mil metros cúbicos de água com rejeitos de minério na área da Mina de Fábrica, em Ouro Preto. No fim da tarde do mesmo dia aconteceu um novo vazamento, dessa vez, na mina Viga, também da Vale, no município de Congonhas. As duas minas ficam a cerca de 22 km de distância uma da outra. De acordo com a Prefeitura de Congonhas, o grande volume de água com sedimentos atingiu o dique de Fraile, em um terceiro vazamento, (o dique é uma espécie de barragem pequena, nesse caso, para contenção de sedimentos carreados por drenos e ou processos erosivos), na Mina Casa de Pedra, da mineradora CSN, que transbordou despejando resíduos e sedimentos de mineração na cidade.
Como resultado desses incidentes, dois afluentes do rio Maranhão foram atingidos pela água contaminada. O rio Maranhão, por sua vez, deságua no Paraopeba, o mesmo rio que passa por Brumadinho e foi atingido pelo rompimento de uma barragem da Vale em 25 de janeiro de 2019. A geógrafa Carla Wstane, da Associação Brasileira de Avaliação de Impacto (ABAI) e representante do Instituto Guaicuy Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), salienta “tivemos uma poluição ali que a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, a SEMAD, falou que é 30 vezes maior que o limite permitido de águas turvas”.

Foto: Divulgação Prefeitura de Congonhas
A intensidade das chuvas levou ao extravasamento das duas estruturas da Vale. Uma delas, na Mina Fábrica, tem características que faz com que devesse ser classificada como uma barragem de mineração segundo a Política Nacional de Segurança de Barragens (artigo 2º da Lei nº 14.066, de 2020), isso porque trata-se de uma cava exaurida, com dique, cuja contenção, ou “leira”, rompeu. A cava é um tipo de cratera artificial de onde se retira o minério, depois que deixa de ser usada para a retirada do minério e passa por um processo de licenciamento e cadastramento na ANM, com equipamentos de monitoramento e fiscalização, ela pode ser usada para depositar água e sedimentos ou rejeitos da mineração.
Já na mina Viga teve o extravasamento de 20 sumps (há mais de 100 na mina, de acordo com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD). Sump é uma espécie de estrutura escavada no chão para retenção de água e sedimentos, que também derramou água com sedimentos devido às chuvas. O incidente na Mina Fábrica atingiu a área operacional da CSN. O terceiro incidente ocorreu na Mina Casa de Pedra da CSN, em Congonhas, o terceiro transbordamento da semana, evidenciando a insegurança das diversas estruturas da mineração diante dos fenômenos climáticos extremos, devido às chuvas intensas e recorrentes.
De acordo com a coordenadora do Observatório de Barragens de Mineração (OBaM) e co-coordenadora do Grupo de Pesquisa Educação, Mineração e Território (EduMiTe/UFMG), Daniela Campolina, não se trata de um caso isolado. “Sim, essas estruturas podem e provavelmente vão extravasar em várias regiões, porque são calculadas em cima de uma média decamilenar de chuva, que, consideram os registros climáticos de antes das mudanças e dos eventos climáticos vividos agora. Então, tem tudo para dar errado”.
Segundo Marcus Vinícius Polignano, diretor do Instituto Guaicuy, as mudanças climáticas mostram que os volumes de água podem ser muito maiores do que os previstos e alerta: “essas estruturas têm que ser reforçadas, repensadas e replanejadas. Inclusive com controle e monitoramento muito mais efetivo”.
O dique da CSN que transbordou passa por obras emergenciais e o volume de material que atingiu o rio ainda não foi confirmado, mas os danos já são percebidos. Durante a coletiva de imprensa realizada dia 27 de janeiro, o prefeito de Congonhas Anderson Cabido destacou que, embora não haja riscos humanos imediatos, houve “grande dano ambiental”, com erosão de áreas verdes e o assoreamento dos rios Maranhão e Paraopeba. “Nós estamos falando de estruturas auxiliares na área de mineração que foram eventualmente negligenciadas, que o trabalho de manutenção delas não foi feito de forma adequada e causou todo esse dano.”

Foto: Divulgação Prefeitura de Congonhas
Para o secretário de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do município de Congonhas, o foco está na turbidez da água, impactos na fauna, biodiversidade, nas pessoas e comunidades locais. Por isso, entre as exigências feitas à mineradora Vale está o estudo dos riscos envolvendo as estruturas de contenção das minas locais. “Como hoje a gente não tem uma medida que exige que sump (essa estrutura que se assemelha a uma piscina) tenha, um monitoramento como é feito com as barragens de rejeitos, nós estamos exigindo, já de forma preliminar, por exemplo, laudo de estabilidade, laudo de segurança dessas áreas, de forma que a gente não corra risco de novos rompimentos”, afirma o secretário.
Daniela Campolina destaca que, mais do que fazer o monitoramento obrigatório dessas estruturas nos processos de licenciamento, a Vale e demais mineradoras deveriam ser impelidas pelo poder público a disponibilizar esses dados publicamente. “A Agência Nacional da Mineração, no ano passado, informou que não tem condições de fiscalizar, não tem verba e equipe. Então, o monitoramento da água, das estruturas, realizado pelas mineradoras, deveriam constar, obrigatoriamente, no sistema público da Agência Nacional para que todos pudessem ter acesso. Porque é claro que, se depender da mineradora, ela não vai querer isso”.
Polignano enfatiza que “mais uma vez, acende a luz vermelha da precariedade de controle e monitoramento dessas estruturas da mineração” e questiona “como essas estruturas se apresentam tão frágeis?”. Ele também chama à responsabilidade o poder público. “Ficamos absolutamente perplexos com essa falta de controle e fiscalização, principalmente da Agência Nacional de Mineração e de órgãos de estado, que teriam por obrigação fazer essa vigilância e esse controle”.
O papel da sociedade civil organizada é o exercício do controle social dessas informações. Para Carla Wstane, não é possível seguir confiando apenas no que dizem as empresas da mineração. “As mineradoras e o próprio governo empurram o problema com a barriga. A gente tem que estar de olho nos dados que são publicados e cobrar. Não dá para a gente confiar só no que a mineradora diz após um incidente como esses. Ela não falou a palavra rompimento, não fala barragem de rejeito, mas sabemos que todas essas estruturas, se danificadas, podem afetar a outras”.

Foto: Divulgação Prefeitura de Congonhas
A bacia hidrográfica do rio Paraopeba abastece 30% de Belo Horizonte e 60% da região metropolitana atendida pela Copasa. A água que vazou das estruturas da Vale e do dique da CSN está contaminada por sedimentos de obras em realização e, que devido a concentração de chuvas e alta declividade do local, erodiram e chegaram até essa estrutura de contenção. Daniela Campolina explica: “as mineradoras adoram dizer que não são resíduos e rejeitos tóxicos, porque eles não são classificados segundo a norma técnica brasileira como rejeitos tóxicos. Realmente, não são classificados, mas o rompimento da Vale e da Samarco demonstraram que mesmo rejeitos que inicialmente não são tóxicos, quando entram em contato com o corpo da pessoa, com a água, com outros componentes, ele acaba gerando substâncias tóxicas”.
Apesar do município de Congonhas ser o mais afetado com os incidentes envolvendo estruturas da mineração, o potencial de danos ecossistêmicos é muito mais amplo. Os cursos d’água atingidos estão no alto Paraopeba, acima da parte do rio atingida pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho em 2019, que destruiu inclusive um sistema de captação de água da Copasa. Como medida de restituição do direito à água em qualidade e quantidade suficientes para a população, a Vale foi obrigada a construir, em um outro ponto do rio, um novo sistema de captação de água. De acordo com Daniela Campolina essa nova captação sequer foi finalizada e já está em risco. “Essa captação já deveria estar pronta há muitos anos e até hoje não está operando. Ela foi construída com verbas da reparação. Se ela estivesse funcionando, esses sedimentos poderiam chegar até essa captação e, inclusive, impactar… fica no campo das possibilidades e desse percurso das águas”.
A Vale já devastou o médio e baixo Paraopeba, agora, tudo isso acende o alerta para a situação das estruturas como cavas, pilhas e barragens de mineração e de rejeitos que estão nesse complexo minerário no alto Paraopeba. Diante desse cenário, Daniela Campolina avisa: “as mineradoras vão tentar minimizar, mas o poder público tem uma responsabilidade muito grande e o comitê de bacia também, no sentido de apontar que isso não é algo isolado. Uma sequência de situações têm ocorrido envolvendo a Vale e pode ocasionar em incidentes muito mais graves inclusive”.
O OBaM/EduMiTe-UFMG lançá um Boletim especial sobre a situação da bacia do Paraopeba após os 7 anos de rompimento da Vale, incluindo informações do rompimento de estrutura da mineradora em Ouro Preto e os extravasamentos em Congonhas. Acompanhe pelo Instagram @edumiteufmg.
Boletim Janeiro – 2026 | Edumite

Foto: Divulgação Prefeitura de Congonhas
A prefeitura de Congonhas bloqueou a emissão de notas fiscais das minas Fábrica e Viga, o que obriga a empresa a reduzir drasticamente suas atividades econômicas. Com isso, a prefeitura exigiu a paralisação das atividades da Vale na Mina Viga ena cava 18 da Mina Fábrica, (as outras estruturas da mina seguem em operação) até ter garantias de segurança para todas as estruturas da mineradora, especialmente as barragens de rejeitos. Desse modo, as atividades devem ficar suspensas até a apuração completa dos danos ambientais, a apresentação de laudos de estabilidade e segurança das áreas afetadas e o monitoramento rigoroso das estruturas de contenção, seguindo padrões similares aos das barragens de rejeito. No entanto, a apuração será realizada pela própria Vale, responsável pelos vazamentos.
Por Ellen Barros, com apoio de Eduarda Garcia
O que você achou deste conteúdo?