Instituto Guaicuy

Atingidos de todo o estado participam dos atos, eventos e manifestações em torno dos 10 anos do rompimento de Fundão

27 de novembro, 2025, por Eduarda Garcia

No marco de 10 anos do rompimento da barragem de Fundão, atingidas e atingidos pela mineração em Minas Gerais se unem e fortalecem, mais uma vez, o grito por justiça e reparação integral. 

O dia 5 de novembro de 2025 marcou os 10 anos do maior crime-desastre socioambiental da história do Brasil: o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana/MG. Atingidas e atingidos pela mineração de diferentes regiões de Minas Gerais, assim como do litoral capixaba e do sul da Bahia, se uniram em um só grito por justiça e reparação. As comunidades assessoradas pelo Instituto Guaicuy tanto na bacia do Rio Paraopeba quanto no distrito de Antônio Pereira, também estiveram presentes. 

No dia 5, propriamente dito, as atenções voltaram-se, principalmente, para a manifestação realizada em Belo Horizonte com a presença de Guilherme Boulos, ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, e de Macaé Evaristo, ministra de Direitos Humanos e Cidadania. 

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“O crime de Mariana que tá fazendo 10 anos, não será esquecido, tá vivo na nossa memória e a gente vai lutar para que isso não aconteça com outras populações e outras comunidades do nosso estado”, afirma a ministra que é natural de Minas Gerais. No ato, a regulamentação da Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas por Barragens (PNAB), mais transparência nos processos de reparação e a garantia do direito ao assessoramento técnico independente foram pautas comuns, que uniram atingidos de diversas regiões do estado. 

Foto: Daniela Paoliello/Instituto Guaicuy

Ato em Belo Horizonte marca os dez anos do rompimento da barragem de Fundão

Resistir, existir e exigir justiça!

Em Bento Rodrigues, primeira comunidade devastada pela onda de rejeitos da Samarco, Vale e BHP, a lembrança do rompimento ainda estrutura a vida de quem sobreviveu. Às 16h20 do dia 5 de novembro de 2015, a barragem de Fundão se rompeu e, em poucos minutos, a lama destruiu casas, deslocou centenas de famílias, matou 19 pessoas e um nascituro, e percorreu toda a calha do Rio Doce até o Oceano Atlântico. Mais de 600 moradores de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo perderam seus lares. Dez anos depois, a reparação prometida ainda não foi concluída.

No marco da década do crime-tragédia, em 5 de novembro de 2025, atingidos, organizações e moradores participaram de uma celebração na Igreja de Nossa Senhora da Mercês, em Bento Rodrigues de origem. Na fachada, foram colocadas cruzes com os nomes das vítimas. Algumas pessoas chegaram carregando uma cruz de madeira, simbolizando o luto e a persistência das famílias em manter viva a memória do rompimento. Camisetas usadas pelos participantes traziam a frase: “a luta por justiça jamais será motivo de vergonha.”

Foto: Leo Souza/Instituto Guaicuy

Durante a celebração, Mônica dos Santos, moradora de Bento Rodrigues e integrante da Comissão de Atingidos pela Barragem de Fundão (CABF), afirmou:

“Dez anos depois, a dor não se dissolveu, as promessas de reparação se arrastam, os reassentamentos seguem incompletos e a justiça caminha a passos lentos, como se a pressa só existisse quando é para explorar, nunca quando é para reparar. A lama segue nas margens do Rio Doce, misturada à saudade de quem perdeu tudo. Segue na água que ainda não é potável, nos quintais que ainda não florescem, nas famílias que ainda esperam uma resposta.”

Após o ato religioso, os participantes seguiram em caminhada até o antigo núcleo de Bento Rodrigues, hoje em ruínas. No local, foi realizado um minuto de silêncio dedicado às vítimas fatais. Duzentos balões biodegradáveis, cada um contendo sementes de girassol, foram soltos como símbolo de refazimento ambiental. “Vai lá reflorestar o que eles destruíram!”, disse Mauro Marques da Silva, integrante da CABF.

Ao final da homenagem, cruzes menores foram depositadas aos pés da cruz principal e cada nome foi pronunciado em voz alta. 

Claudio Fiuza, Sileno Narkievicius de Lima, Waldemir Aparecido Leandro, Emanuely Vitória, Thiago Damasceno Santos, Marcos Xavier, Marcos Aurélio Pereira Moura, Samuel Viera Albino, Mateus Márcio Fernandes, Edinaldo Oliveira de Assis, Daniel Altamiro de Carvalho, Maria Elisa Lucas, Maria das Graças Celestino, Claudemir Santos, Pedro Paulino Lopes, Antônio Prisco de Souza, Vando Maurílio dos Santos, Ailton Martins dos Santos, Edmirson José Pessoa e Arunna ou Abnner (da gravidez interrompida no terceiro mês de gestação por culpa do crime). 

Foto: Leo Souza/Instituto Guaicuy

A cada nome, o mesmo coro ecoou: presente, presente, presente.

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Para não esquecer

No centro histórico de Mariana, às 16h20, soou a sirene. O mesmo ruído que poderia ter salvado vidas há 10 anos atrás e que, hoje em dia, aterroriza comunidades inteiras que convivem com barragens à montante, verdadeiras bombas-relógio sobre suas cabeças. O ato foi promovido pelo Jornal A Sirene, veículo de comunicação popular feito por e para pessoas atingidas e que tem parceria com o Instituto Guaicuy desde março de 2023. Conduzido por Sérgio Papagaio, editor chefe do jornal, o ato contou com a presença de pessoas atingidas de Mariana, Antônio Pereira entre outras regiões de Minas Gerais. Além disso, estiveram presentes o prefeito de Mariana, representantes das universidades federais de Minas Gerais e de Ouro Preto, trabalhadoras e trabalhadores de Assessorias Técnicas Independentes e militantes de diversos movimentos sociais. 

Manuel Marcos Muniz (Marquinhos), morador de Bento Rodrigues e integrante da CABF, fez um relato emocionado das lutas travadas nesses dez anos e dos desafios impostos no processo de reparação. “Até hoje tem gente do Bento sem sua casa”, relata ele, que lembra das mortes que ocorreram em razão do rompimento da Barragem, seja no dia 5, arrastados pelo mar de lama, seja depois disso, pelo adoecimento físico e mental de parcela significativa das populações atingidas. O senhor Wilson Nunes, integrante da Comissão de Pessoas Atingidas de Antônio Pereira fez uma fala em solidariedade ao amigo Marquinhos Muniz e em protesto, uma vez que o distrito foi reconhecido como atingido após a repactuação “Novo acordo do Rio Doce”, mas esse reconhecimento ainda não se reverteu em reparação devido aos critérios de acesso ao programa de indenização.

Universidade e militância ao lado das pessoas atingidas

A Frente Mineira de Luta das Atingidas e dos Atingidos pela Mineração (FLAMa-MG) realizou junto à Universidade Federal de Ouro Preto o evento “7º Encontro regional por um novo modelo de mineração” e “7ª Jornada universitária de debate na mineração”, com pautas em torno dos 10 anos do rompimento da barragem de Fundão. Entre as atividades, destacam-se as mesas “A criminalização de lutadores/as sociais no contexto da mineração na Região do Quadrilátero Ferrífero”, no dia 7 de novembro, e “As lutas sociais e ambientais em territórios atingidos pela mineração: a importância das ATI’s nesse contexto”, no dia 11 de novembro. Ambas as mesas foram mediadas pela professora Katiuça Bertollo, integrante da FLAMa-MG e presidenta do Sindicato dos professores da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e contaram com a presença de pessoas atingidas pela Barragem Doutor, da Vale, em Antônio Pereira.

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No dia 7, as líderes comunitárias Carla Dayane Moreira Dias (Antônio Pereira/Ouro Preto) e Denizete de Fátima dos Santos Silva (Amarantina) dividiram a mesa com os líderes sindicais Bruno Teixeira (METABASE) e Wallace Alves (SINDSEMA). Ao contar sobre a recente vitória no embate judicial contra a Vale, que a processou junto a outras três mulheres da comunidade, Carla Dayane diz da tentativa de inversão de papéis. “A criminosa é a Vale, ela que devasta o meio ambiente, ela que tira direitos das pessoas, ela que mente, ela que manipula e sacaneia. Eu sou uma atingida, processada por ela, e até hoje sofre perseguições da Vale, inclusive estou dentro do Programa de Proteção dos Defensores de Direitos Humanos.”, relata a integrante da Comissão de Pessoas Atingidas de Antônio Pereira.

Direito à livre manifestação prevalece sobre ofensiva da Vale em Antônio Pereira

As lutas sociais e ambientais nos territórios atingidos

No dia 11, Rafaela Cristina Rosa, psicóloga e pessoa atingida de Antônio Pereira, esteve ao lado de Izabella Rezende, gerente do projeto da Assessoria Técnica Independente de Antônio Pereira, na mesa “As lutas sociais e ambientais em territórios atingidos pela mineração: a importância das ATIs nesse contexto”. A atividade integrou a programação do Seminário “Perspectiva socioambiental dos 10 anos de rompimento da barragem de Fundão no Alto Rio Doce” e do 7º Encontro Regional por um Novo Modelo de Mineração, realizado no Centro de Convenções da UFOP.

O encontro reuniu atingidos, pesquisadores, representantes de ATIs e organizações da sociedade civil para debater o papel das assessorias técnicas, os limites do modelo de reparação vigente e os desafios enfrentados pelas comunidades ao longo da última década.

Foto: Leo Souza/Instituto Guaicuy

Rafaela Rosa, psicóloga e pessoa atingida de Antônio Pereira, reforçou que o sofrimento da comunidade não começa em 2015. Segundo ela, os atingimentos pela mineração antecedem o rompimento de Fundão e acompanham toda a sua vida: “Desde que me entendo por gente, há mineração em Antônio Pereira”. Ela lembrou que a barragem Doutor, da Vale, “é praticamente dentro da comunidade”, visível de qualquer ponte do distrito. Em 2020, quando entrou em risco de rompimento, dezenas de famílias foram retiradas às pressas de suas casas, especialmente na Vila Samarco. 

Segundo Rafaela, o território apresenta sinais claros de deterioração: poeira constante, impactos à saúde, trânsito intenso de caminhões, perda de áreas naturais e dificuldades de acesso a serviços básicos: “se vocês forem hoje nas Zonas de Autosalvamento, as ZAS, vão ver que a estrutura é completamente diferente. É um território degradado, que junta bicho; as casas estão sucateadas, em ruínas. Parece até que uma lama já passou por ali, só que é a lama invisível, aquela que a gente sofre há tanto tempo. E Antônio Pereira segue nessa luta por emancipação, por reconhecimento, desde muito tempo”. 

Izabella Rezende, por sua vez, destacou como o próprio modelo de reparação imposto às comunidades produz novas camadas de violência. “Esse modelo de reparação submete as pessoas a escolhas que não deveriam ser prioridade em suas vidas. Isso já é, por si só, uma violência. E essa violência atinge diretamente as pessoas atingidas, mas também os profissionais da assessoria técnica, que constroem relações diárias com elas, que escutam esses relatos e muitas vezes têm de tomar decisões que não são suficientes para aquela realidade”, declarou. 

Foto: Leo Souza/Instituto Guaicuy

Izabella também chamou atenção para o impacto emocional e profissional sobre as equipes das ATIs, que acompanham de perto esses relatos e, muitas vezes, precisam atuar em um cenário de insuficiência estrutural, com equipes pequenas, demandas gigantescas e um processo judicial que se transforma em um espaço permanente de disputa de narrativas. Para ela, trabalhar em Antônio Pereira desde 2020  significou construir vínculos profundos com uma comunidade que enfrenta múltiplas vulnerabilidades. “Essas pessoas vivem em um contexto de guerra”, afirmou. Izabella reforçou a importância das ATIs como instrumentos de participação, informação e defesa de direitos, especialmente em territórios submetidos continuamente a danos socioambientais.

A mesa encerrou destacando que, dez anos após Fundão, a luta pela reparação integral segue viva porque é movida pela resistência cotidiana de comunidades como Antônio Pereira, que continuam reivindicando justiça, reconhecimento e condições dignas para existir.

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Romaria das Águas e da Terra da Bacia do Rio Doce 

A 8ª Romaria das Águas e da Terra da Bacia do Rio Doce ocorreu em Mariana no dia 9 de novembro de 2025 e reuniu milhares de romeiros, atingidos, lideranças religiosas e movimentos sociais que atuam ao longo da bacia. A edição deste ano marcou a lembrança dos dez anos do rompimento da barragem de Fundão e retomou o compromisso coletivo com memória, justiça e esperança. Com o tema “Bacia do Rio Doce, nossa Casa Comum” e o lema “10 anos do crime: memória, justiça e esperança”, a Romaria reforçou o acompanhamento permanente das vítimas e dos impactos socioambientais que continuam a atingir dezenas de comunidades desde 2015.

Organizada pela Província Eclesiástica de Mariana, que reúne dioceses de Minas Gerais e do Espírito Santo inseridas no território da bacia, a Romaria começou às 6h na Praça dos Ferroviários, onde romeiros e romeiras participaram de um café comunitário e de apresentações culturais conduzidas por grupos dos territórios atingidos. Caravanas de diferentes municípios se juntaram ao encontro, muitas delas formadas por famílias diretamente afetadas pelo rompimento ou por pessoas que vieram prestar solidariedade e fortalecer a luta por reparação.

Foto: Gabriel Nogueira/Instituo Guaicuy

Durante toda a manhã, cartazes, faixas e bandeiras relembraram os “mártires da luta”, denunciaram a ausência de justiça após uma década e reforçaram a necessidade de reparação efetiva nos territórios impactados. O primeiro momento de reflexão foi dedicado às vítimas do rompimento, antes do início da caminhada em direção ao centro histórico de Mariana. A grande cruz de madeira, símbolo tradicional da Romaria, seguiu à frente do cortejo. Na segunda parada, em frente à catedral basílica Nossa Senhora da Assunção (Sé), um momento de clamor por justiça e defesa da vida. 

A caminhada seguiu até a Praça Minas Gerais, onde foi celebrada a Missa Eucarística presidida pelo arcebispo de Mariana, Dom Airton José dos Santos, e concelebrada por bispos e padres das dioceses da Província Eclesiástica. No altar, as imagens dos santos dividiam espaço com fotografias das vítimas do rompimento e símbolos das comunidades atingidas, reforçando a união entre fé, memória e resistência.

Foto: Gabriel Nogueira/Instituto Guaicuy

Ao final do encontro, foi apresentada a Carta da 8ª Romaria das Águas e da Terra da Bacia do Rio Doce. O documento sintetiza reflexões sobre a continuidade dos danos provocados pelo rompimento da barragem de Fundão, denuncia os impactos do atual modelo de mineração e reafirma o compromisso com a defesa dos direitos das populações atingidas e da Casa Comum. Em seguida, houve uma apresentação cultural do grupo quilombola e ribeirinho Volta da Capela, de Barra Longa, encerrando o evento com expressões tradicionais dos territórios afetados.

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Por Eduarda Garcia e Ellen Barros
Foto destaque: Léo Souza/Instituto Guaicuy

 

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