“Tem 30 anos que eu moro aqui e eu nunca vi o Choro na situação que vive hoje. Você vê a beirada do rio, a cachoeira… é um lugar morto. A Cachoeira do Choro acabou”, relata Nilda Moura. Ela é proprietária de um bar na comunidade, localizada em Curvelo, e seu marido é pescador.
Nilda conta que o Rio Paraopeba é o foco das atividades comerciais da região e que, antes do rompimento, várias excursões com turistas chegavam na região todos os finais de semana. As pessoas iam para tomar banho de rio e, claro, consumir nos bares, comprar peixes, artesanato, quitutes, se hospedar nos ranchos, etc. “A venda caiu 99%. A gente que mexe com comércio hoje é zero, porque não vem ninguém. Piorou foi tudo, tudo”, lamenta.
O relato da comerciante é apenas um em meio a muitos. A queda brusca no turismo em várias comunidades ao longo da bacia hidrográfica do Paraopeba, até a Represa de Três Marias e o Rio São Francisco, causou também um grande impacto financeiro em toda uma cadeia econômica. Isso ficou claro no levantamento com a validação de danos realizado pelo Guaicuy junto à população atingida das Regiões 4 e 5 nos primeiros meses deste ano.
Na categoria “Turismo: danos que reduzem as oportunidades e benefícios do turismo”, foram identificados os seguintes danos:
Um dano também foi identificado na categoria “Economia tradicional: danos aos bens, posses e atividades econômicas tradicionais”:
“A maior empresa que eu já trabalhei foi essa aqui, e trabalho até hoje”. É assim que o Prego, um pescador e guia de barco de Beira Rio, em São Gonçalo do Abaeté, se refere às águas da Represa de Três Marias e do Rio São Francisco, de onde tira o seu sustento. Ele conta que, na ocasião do desastre-crime, muitos de seus clientes cancelaram agendamentos de passeios.
A perda financeira foi tão grande que ele não teve outra opção — precisou ir para Brumadinho para trabalhar por um tempo em uma empresa que presta serviços terceirizados para a própria Vale para conseguir sobreviver. Segundo ele, há pescadores que abandonaram o território e a profissão e estão lá até hoje.
Na região onde ele atua, a situação foi melhorando ao longo dos últimos anos e hoje, ele não tem passado tantas dificuldades, apesar da preocupação em relação à contaminação das águas, tanto na própria saúde quanto na de turistas.
Luiz Aníbal, de Indaiá de Cima, em Morada Nova de Minas, que é dono de um rancho de pescaria — uma espécie de pousada — e também trabalhava como pescador, foi outro que sofreu os impactos. Segundo ele, no dia seguinte ao rompimento as pessoas que estavam hospedadas no estabelecimento já foram embora. Sua situação ficou tão crítica que ele só não passou fome porque teve ajuda financeira familiar. Hoje ele se recuperou, inclusive pelo recebimento do Programa de Transferência de Renda (PTR), auxílio financeiro previsto no Judicial de Reparação, mas o movimento nunca mais foi o mesmo: “O turismo ainda não voltou igual era antes, né? Não voltou igual antigamente, principalmente nessa época do ano”, conta.
A queda no turismo gera um impacto em toda a cadeia de serviços. Luiz tinha um ajudante que trabalhava como piloto de barco e guia turístico e que, eventualmente, o ajudava também na limpeza do rancho. A partir do desastre-crime, ele não conseguiu mais fazer os pagamentos acordados e precisou dispensá-lo.
O mesmo ocorreu com Nilda, que tinha duas funcionárias que a ajudavam no bar. Ela também contava com o auxílio das filhas, mas hoje em dia são apenas ela e o marido. Por conta das dificuldades financeiras, agravadas pela redução do valor do PTR, uma das suas filhas acabou deixando a Cachoeira do Choro. Ela ainda relata que muita gente que trabalhava com o turismo precisou mudar de profissão sem ter domínio técnico: “Tem muitos aqui que eram pescadores, aí viraram pedreiros. Aí a gente usa a expressão ‘meia colher’, porque não sabem fazer direito, mas têm que sobreviver.”.
Uma das formas de amenizar os impactos da queda do turismo é o início do Anexo 1.1, cujo projeto piloto foi lançado em junho. Trata-se da parte do Acordo de Reparação que destina verbas para viabilizar projetos elaborados pelas comunidades e criar linhas de crédito para as pessoas atingidas.
Para Luiz Aníbal, a execução desse Anexo pode trazer transformações muito positivas na região dos portos de Morada Nova de Minas. Como há muitas cachoeiras, grutas, a população poderia se beneficiar de ações de divulgação das opções de turismo na região. Para isso, seria necessário melhoria da infraestrutura das comunidades — em aspectos como nas estradas, qualidade e horário das balsas, distribuição de energia elétrica — mas também nas estruturas dos serviços ofertados, como ranchos, pousadas e restaurantes, garantindo segurança e um conforto básico aos turistas. Ele faz parte da Comissão dos Portos, que tem a ideia de criar uma rota do turismo na região.
Já Nilda não tem tanta esperança no Anexo 1.1. Para ela, ainda que projetos como de produção de quitutes e realização de feiras possam ser interessantes, eles só trarão benefícios para a população da sua comunidade se os turistas voltarem a frequentá-la. No entanto, ela acredita que isso não vai acontecer antes que haja a reparação socioambiental e a limpeza do rio: “Aí vai vender pra quem? Pros caramujos? Porque a Cachoeira do Choro hoje encheu foi de caramujo” (sinal de desequilíbrio ambiental). (…) Muitos falam em dinheiro… Se dinheiro resolvesse era bom, mas o que nós queríamos era o rio limpo. Voltar ao que era antes, né? Ao que era antes…”, almeja.
Imagem destacada: Cachoeira do Choro, em Curvelo. Crédito: Daniela Paoliello/Guaicuy
É uma pena esta acontecendo isso esse lugar era maravilhoso ainda gosto muito de ir aí tenho boas lembranças e lindas fotos só recordações
Então,e a mais pura verdade,eu como pescador até hj n recebi dinheiro nenhum estar em recurso,qdo aconteceu o acidente estava no pé da barragem de retiro baixo em Felixandia fazendo transposição ambiente manual ,perdir o emprego e até hj voltei triste realidade n recebi nada da vale nem nada!!