Um evento que contou com a participação de ambientalistas, representantes do poder público e sociedade civil marcou o lançamento da Meta 2034 no dia 13 de novembro em Santa Luzia. Foi às margens do Rio das Velhas que mais uma vez o Projeto Manuelzão oficializou o compromisso de lutar pela revitalização do rio, que atravessa a Região Metropolitana de Belo Horizonte.
A Meta 2034, cujo embaixador é o médico e professor Apolo Heringer, um dos fundadores do Manuelzão, representa a renovação do desejo — e da necessidade — de despoluir a bacia hidrográfica do Velhas, trazendo de volta a vida aquática, recuperando matas ciliares e contribuindo para o meio ambiente equilibrado. Para alcançar esse resultado, a intenção é concentrar os esforços de recuperação no trecho mais degradado, que vai da Estação de Tratamento de Água de Bela Fama, em Nova Lima, até a foz do Ribeirão da Mata, entre os municípios de Santa Luzia e Vespasiano.
Edição 96 da Revista Manuelzão é dedicada à Meta 2034
Esse segmento representa apenas 60 km de calha principal do rio, que tem mais de 800 km de extensão, mas concentra cerca de 85% dos danos e abriga 85% da população, da indústria e do Produto Interno Bruto (PIB) da bacia. Um dos objetivos é conseguir que a água na região alcance a Classe 2 de qualidade, com águas que podem ser destinadas ao abastecimento para consumo humano, após tratamento convencional, onde é permitido realizar atividades como natação e mergulho e para irrigação de alimentos comestíveis e de campos com os quais o público possa ter contato direto, além da pesca e aquicultura.
Atualmente a água no epicentro da degradação é de Classe 4, enquadramento considerado de um rio morto. Mas essa situação pode ser revertida. As Metas 2010 e 2014 já mostraram que o empenho coletivo da sociedade civil, das empresas e, principalmente, do poder público, alcança resultados palpáveis e muito relevantes. No entanto, há desafios sistêmicos que ainda comprometem a saúde do rio e precisam ser superados, entre eles a poluição por esgotos, a pressão imobiliária em áreas de preservação, as mudanças climáticas e os impactos da mineração predatória, que tanto tem afetado nossas bacias hidrográficas. Além dos impactos nefastos dos rompimentos de barragens, o bombeamento de águas subterrâneas para essa atividade tem causado redução significativa no volume hídrico dos cursos d’água.
Entre as estratégias para o alcance da Meta 2034, estão a incorporação dela ao planejamento federal, ao encontro do Marco Legal do Saneamento, que estabelece o prazo de 2033 para que municípios garantam água potável a 99% da população e coleta e tratamento de esgoto a 90%. É necessário também melhorar os níveis de tratamento e a drenagem, a coleta de lixo e reduzir a poluição difusa. A Meta precisa ocupar o espaço que ela merece nas políticas públicas, com foco na renaturalização dos cursos d’água, na água limpa e na volta dos peixes ao rio. Além do ganho ambiental, isso também é política de combate à fome e de geração de renda, garantindo vida ao rio e a todo ecossistema que precisa dele.
Para o ambientalista e vice-presidente do Instituto Guaicuy, Ronald Guerra, conhecido como Roninho, a revitalização do Velhas, articulada estrategicamente pela Meta, ultrapassa os limites institucionais porque passa a ser um grande movimento social na Bacia: “É a luta de todos pelo rio que precisamos, que garante a proteção da biodiversidade, a nossa própria qualidade de vida e assegura condições de restauração de todo um complexo sistema hídrico, garantindo também a própria segurança alimentar”, afirma.
No evento de lançamento, o prefeito de Santa Luzia, Paulo Bigodinho (PV), se comprometeu com a Meta 2034 e destacou o papel da cidade na articulação regional — o que é muito importante, dado que a lógica da bacia hidrográfica não se resume aos limites municipais. Esse ponto foi tratado por Apolo Heringer, que afirmou: “a gestão de uma bacia não é a soma de gestões municipais, mas o cumprimento coletivo de um objetivo único”.
Leia mais sobre o lançamento no site do Manuelzão
Roninho ainda destaca que a condição dos peixes indica a nossa qualidade civilizatória nos territórios e que a revitalização consolidada traz maior qualidade para todas as espécies que habitam a Bacia. “Precisamos ouvir os murmúrios do Rio das Velhas, que clamam por águas límpidas, descrevem nossas mazelas civilizatórias e nos alertam da pouca prosperidade futura”, adverte o ambientalista.
Esse propósito, embora renovado agora com o lançamento, é o que move há quase 30 anos o Projeto Manuelzão, que se dedica à educação, saúde e cidadania na Bacia do Rio das Velhas. É todo um legado já construído, mas também o sonho da construção de uma nova relação com as águas, um convite a contemplar um rio vivo e proteger para que as gerações futuras também tenham esse direito.
Imagem destacada: Enaile Almeida/Projeto Manuelzão.
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