Instituto Guaicuy

Nossas Mães Pretas não foram meninas: memória, luta e ancestralidade

19 de novembro, 2025, por Comunicação Guaicuy

Por Lázara Juliana, da Comissão Baixo Paraopeba

AVISO: este texto contém narração de situações de racismo e outras violências.

Novembro é o mês em que o Brasil se olha no espelho, e precisa escolher não desviar o rosto. No Mês da Consciência Negra, celebramos legados, honramos quem veio antes e denunciamos a estrutura que ainda insiste em negar direitos, oportunidades e humanidade às pessoas negras — especialmente às mulheres negras.

É tempo de lembrar que a liberdade não foi um presente. É uma conquista diária, feita de resistência e dor, mas também de afeto, criação e reconstrução. A memória coletiva negra nos convoca a revisitar o passado para mover o presente e garantir o futuro. E em territórios atingidos por crimes ambientais, essa memória ecoa ainda mais forte, porque onde o racismo estruturou pobreza e desigualdade, ele também opera na reparação, na dor e na luta para existir dignamente após um desastre-crime.

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Lazara Juliana (foto: acervo)

Lázara Juliana é uma mulher preta que decidiu transformar essa dor em denúncia e memória viva. Representante da Comissão Baixo Paraopeba, de pessoas atingidas pelo desastre-crime da Vale, Lázara enfrenta o racismo, o adoecimento e a luta por reparação com dignidade, coragem e amor. Na caminhada pela reparação, ela não encontrou apenas burocracia e desigualdade, mas também formação política, consciência racial e coragem para nomear violências antigas, que ela e outras mulheres viveram. 

“Somos resilientes, a força da nossa ancestralidade corre nas nossas veias, e não vai parar por aqui. Vamos juntas abrir nosso caminho, para que outras mulheres tenham passagem?”

Foi ideia de Lázara compilar depoimentos e histórias de mulheres pretas que admira e com quem convive. As entrevistas começaram na região de Belo Horizonte e, em breve, o projeto deve continuar junto às mulheres atingidas pela Vale na região do Baixo Paraopeba.

Maria LuizaMaria Luiza (foto: acervo)

Carioca de 67 anos, Maria Luiza veio morar em Belo Horizonte aos cinco. Desde muito pequena, já trabalhava em vez de brincar, ajudando a mãe no trabalho de casa. Com 12 anos, foi trabalhar como empregada doméstica de uma família branca, onde “a patroa fazia questão de separar os talheres, como se a negritude fosse contagiosa”. Além do racismo, nessa casa Maria Luiza também conheceu a violência sexual, quando o filho da patroa tentou atacá-la. Felizmente, ela conseguiu lutar e se salvar. Hoje, Maria vive bem, cheia de saúde e carinho da família, além de fazer sucesso como empreendedora afro. 

Maria de Lourdes

Maria de Lourdes (foto: acervo)

Dona Lourdes conta que, antes dos brinquedos, vieram as responsabilidades: aos oito anos já trabalhava para ajudar a sustentar os irmãos. No interior de Minas Gerais, a infância foi interrompida como se fosse destino, como são as infâncias de tantas meninas negras. Depois de ir trabalhar na casa de uma tia, foi empregada doméstica, servindo famílias brancas por 11 anos. Em seguida, casou-se e foi cuidar da própria família. Com 70 anos, Maria tem seis filhos, 20 netos e dois bisnetos. Ela leva a vida “com alegria e fé”, e celebra a criação de mundos inteiros em sua família, tendo superado as dificuldades que foram colocadas no começo da sua própria vida.

Maria de Fátima

Maria de Fatima (foto: acervo)

Aos 70 anos, Dona Fátima guarda lembranças capazes de envergonhar o Brasil. Aos dez anos, “passava o dia inteiro quebrando côco pra comprar comida.” Aos 15, já era copeira, arrumadeira, lavadeira e passadeira. Ela conta que, numa casa onde trabalhou, a geladeira era trancada com correntes para impedir o acesso dos empregados. “Eu e minha prima, negras, só podíamos comer arroz e feijão virado”. Dormia no quintal, “não tinha hora de começar nem de parar.” Fátima nunca soube quanto era seu salário, pois seu pai viúvo era quem recebia o dinheiro, para criar as irmãs. Hoje, a matriarca de três filhas e dez netos afirma que “uma mulher negra representa coragem e resiliência, sendo protagonista de sua própria história”.

Elisa Maria

Elisa Maria (foto: acervo)

Elisa Maria nasceu e cresceu no bairro Primeiro de Maio, em Belo Horizonte. Começou a trabalhar aos 13 anos, em uma fábrica de costura, onde era a mais jovem, e lembra que “as meninas brancas eram sempre elogiadas”. Os patrões, brancos, eram militares, rígidos e grosseiros. Também trabalhou como doméstica, e estudava à noite. Conquistou uma bolsa parcial para estudar, e em 1982, tornou-se monitora da FEBEM (antiga Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor). Lá, ela percebeu o recorte racial, já que a maioria dos adolescentes eram negros e pobres. Sua trajetória a levou à luta social: “passei grande parte da juventude lutando contra a ditadura militar, pelos direitos das mulheres negras, das pessoas indígenas.” Formada em Primeiros Socorros, Artesanato e Técnica Disciplinar, Elisa tem 66 anos, e também é mãe e avó.

Eva Dias

Eva Dias (foto: acervo)

Mulher quilombola de 35 anos, Eva aponta como o racismo atravessa gerações. Começou a trabalhar ainda criança, ajudando a mãe. Foi empregada doméstica dos 9 aos 13 anos, sem direito ao próprio salário. Uma experiência marcou sua infância: “a patroa escondia dinheiro para ver se eu pegava, testando meu caráter”. Depois, trabalhou em padarias e supermercados — “os únicos lugares onde conseguia emprego”. Eva é mãe, produtora rural e microempreendedora. E não desiste jamais!

Fenícia*

Lendo as histórias de mulheres negras de mais de 60 anos, gostaríamos de acreditar que esse tipo de violência ficou no passado. Mas o racismo se reinventa e continua ferindo as meninas negras. Fenícia, de 15 anos, tem orgulho do seu cabelo black power, da beleza que carrega de suas ancestrais. Mas, na escola, é atacada por outras meninas, que dizem que seu cabelo é feio e que não deveria ser assim. O espaço que deveria educar, acolher e proteger se torna cenário de agressão. E diante da dor, da humilhação e da falta de defesa, a jovem reage como pode, com a maturidade emocional de uma adolescente para enfrentar o racismo explícito.

*nome fictício

Memória como cura coletiva

Para Lázara, essas histórias vêm de um Brasil que muitos fingem não conhecer, mas que ainda existe e é documentado nos corpos e memórias das mulheres negras. “Essas mulheres não foram meninas. Não lhes deram infância, proteção ou direito ao afeto. Mas elas deram ao Brasil trabalho, cuidado, família, cultura”, comenta. 

O movimento iniciado por Lázara não é apenas de registro, mas de cura coletiva. Ela diz para cada menina negra do presente e do futuro: “você merece brincar. Você merece sonhar. Você merece ser criança”. E também diz ao Brasil que não há reparação ambiental sem reparação humana. “Não haverá justiça sem ouvir as mulheres negras que sustentam este território”, completa.

Imagens: Daniela Paoliello/Guaicuy (capa), acervo.

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