O Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM) divulgou uma nota técnica sobre o monitoramento da qualidade da água e sedimentos no Reservatório de Três Marias e no Rio São Francisco, a jusante da usina. A nota traz informações solicitadas pelas pessoas atingidas da Região 5 em um ofício encaminhado em abril pelo Instituto Guaicuy ao Comitê Pró Brumadinho, IGAM e Ministério Público de Minas Gerais (MPMG).
As análises divulgadas apontam, ao longo de cinco anos de monitoramento, episódios de turbidez e níveis de ferro, manganês e alumínio dissolvido acima dos limites, sobretudo em períodos chuvosos. Segundo o IGAM, “os dados não refletiram alterações em função do rompimento da barragem B1 pertencentes ao complexo da Mina Córrego do Feijão da mineradora Vale S.A”.
Para Mônica Campos, do Instituto Guaicuy, a nota técnica “relativiza a possível influência dos rejeitos nas alterações identificadas”. Mônica considera o baixo o número de resultados disponíveis para avaliar a qualidade dos sedimentos e pondera que “ao comparar os limites para elementos como arsênio, cromo, chumbo, níquel e zinco, o critério internacional utilizado pode ser menos rigoroso que a normativa brasileira”. Dessa forma, “o critério empregado para avaliar o ferro e o manganês (que não existe na legislação brasileira) não prioriza a segurança das pessoas atingidas e nem do meio ambiente”, pontua a bióloga.
No Reservatório de Três Marias, foram observadas violações pontuais em parâmetros como turbidez, manganês e ferro dissolvido, sobretudo durante as chuvas intensas de 2022, além de alumínio dissolvido em períodos chuvosos. Já chumbo e mercúrio não apresentaram violações. No trecho do Rio São Francisco a jusante de Três Marias, as não-conformidades mais relevantes envolvem alumínio, manganês, oxigênio dissolvido, sólidos suspensos, turbidez, sulfetos, DBO, fósforo e E. coli. O IGAM associa parte dessas ocorrências à geologia rica em metais, mas também a fontes como a operação da usina, esgotos urbanos e atividades industriais, incluindo uma planta de beneficiamento de zinco.
Em relação aos sedimentos, os dados entre 2020 e 2024 foram analisados com base em referências nacionais (CONAMA 454/2012) e internacionais (NOAA SQUIRTS). A maioria dos metais não ultrapassou limites de risco ambiental, embora cromo, zinco, níquel e chumbo tenham apresentado concentrações dentro dos níveis de atenção em algumas amostras.
O IGAM conclui que as alterações observadas não têm relação com o rompimento da barragem da Vale, podendo derivar de outras fontes poluidoras. A nota técnica reforça que a frequência de monitoramento pode ser revista em avaliações futuras e que questões relacionadas à saúde humana e à pesca devem ser tratadas por outros órgãos, como a Secretaria de Saúde e o Instituto Estadual de Florestas.
Em 2024, o IGAM optou por alterar a frequência de monitoramento da qualidade da água de mensal para trimestral, com base nos dados de uma malha amostral considerada robusta e também em outros estudos (entre eles da Vale) que indicavam a possibilidade de redução dessa frequência. Contudo, a nota técnica não menciona os estudos ou referências bibliográficas que permitam avaliação objetiva desses critérios, como foi solicitado no ofício de abril. Diante disso, a Assessoria Técnica Independente pedirá informações complementares.
A nota técnica traz ainda uma possível explicação para o mau cheiro relatado por pescadores no trecho do Rio São Francisco a jusante da barragem de Três Marias. Segundo o IGAM, “foram observadas concentrações de sulfeto em desacordo com o padrão normativo” em 2024. Essas não-conformidades podem estar relacionadas ao mau odor reportado.
Os dados do monitoramento do IGAM podem ser acessados no site da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) ou no Portal Infohidro.
Imagem: Daniela Paoliello/Guaicuy.
O que você achou deste conteúdo?