Em audiência pública da Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais realizada na terça-feira (29/4), foram apresentados os resultados parciais de pesquisas sobre saúde das pessoas atingidas pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, ocorrido em 2019.
Os trabalhos, conduzidos pela Fundação Oswaldo Cruz de Minas Gerais (Fiocruz Minas) em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e financiados pelo Ministério da Saúde, foram iniciados em Brumadinho em 2021 e ocorrem em duas frentes. Enquanto o Projeto Bruminha acompanha crianças de 0 a 6 anos, a pesquisa Saúde Brumadinho foca na população acima de 12 anos.
Entre os resultados apresentados pela professora Carmen Fróes, coordenadora responsável pelo Projeto Bruminha, pôde ser observado que em 2021 foi identificado um risco três vezes maior de alergias respiratórias nas crianças residentes em localidades expostas à poeira de resíduos de mineração. E em 2022 e 2023, de uma forma geral, há aumento de relatos de alterações respiratórias.
Em relação à detecção de resíduos de metais na urina das crianças, foi encontrado arsênio em 100% das amostras de urina de crianças analisadas durante os três primeiros anos de pesquisa. No caso dos outros metais monitorados — chumbo, mercúrio e cádmio — houve aumento da taxa de detecção ao longo dos anos. Ou seja, os metais foram identificados em uma quantidade maior de crianças. Assim como o arsênio, chumbo e mercúrio apareceram em 100% das amostras em 2023.
Segundo a professora, a detecção dos metais em si não causa grandes preocupações, dado que é natural encontrá-los em pessoas que vivem em regiões minerárias — ou seja, que já contêm esses metais no ambiente. No entanto, ao longo dos anos houve também aumento da concentração dos metais, principalmente de arsênio, acima dos valores de referência em três das quatro comunidades acompanhadas. Também aumentou o número de crianças com concentração de arsênio acima do valor de referência, que era de 42% em 2021 e chegou a 57% em 2023. Isso significa que está crescendo a exposição das crianças a esse metal.
A pesquisa Saúde Brumadinho, que abarca adolescentes a partir de 12 anos e população adulta, foi apresentada pelo professor Sérgio Peixoto. Segundo ele, cerca de 18,1% da população adulta de Brumadinho relata diagnóstico médico de depressão. A taxa é quase o dobro que a da média da população brasileira, de 10,2%. Destaca-se também que esse valor não tem diminuído ao longo dos anos do estudo.
Quando se trata de sintomas depressivos e transtornos de ansiedade em adultos, as taxas identificadas em 2024 são de 28,2% e 19,8%, respectivamente. Embora esses valores tenham diminuído ao longo dos anos em que a pesquisa tem sido realizada, o professor reforça que são índices ainda muito elevados e que esses cenários de risco são dinâmicos, então não dá para se considerar que há uma tendência de melhoria. Já no caso de adolescentes, são 17,6% de relatos de sintomas depressivos e 12,6% de transtorno de ansiedade. Ao contrário do caso anterior, foi observada uma piora entre os levantamentos realizados em diversas comunidades entre 2021 e 2024.
As condições respiratórias também foram abordadas na Saúde Brumadinho. De acordo com Sérgio, 10,8% da população adulta relata diagnóstico de asma, uma taxa duas vezes maior que a média nacional, que é de 5,3%. Em adolescentes, o valor chega a 13,2%. “Sintomas respiratórios são frequentes, persistentes e são objetos de reclamação bem frequente da população”, afirma.
Por fim, é abordada a taxa de detecção de metais. Assim como em casos anteriores, em adolescentes e adultos tem-se observado redução no percentual da população exposta, mas os valores de 2023 continuam muito elevados. Ainda não há dados em relação a 2024. A exceção é o manganês, um metal muito presente na lama de rejeitos do rompimento. No caso desse metal em específico, a detecção foi quase zerada.
Em geral, foi reforçado pelos coordenadores das duas pesquisas que é preciso que as populações atingidas tenham acompanhamento médico constante, principalmente porque há poucas evidências científicas sobre a exposição a metais. Outro ponto de relevância é a necessidade de reforço do Sistema Único de Saúde para um atendimento qualificado da população atingida em relação a todos os problemas relatados.
Cabe ainda ressaltar que as pesquisas acompanham apenas comunidades em Brumadinho e não contemplam a população dos outros 25 municípios atingidos pelo desastre-crime, distribuídos em mais outras quatro regiões pelas Instituições de Justiça que acompanham o caso. A supervisora de Reparação Socioambiental do Guaicuy, Mônica Campos, enfatiza: “temos uma população imensa que ainda sofre com problemas de saúde e com as incertezas em relação à contaminação humana e ambiental. É de extrema relevância que tenhamos estudos que possam trazer respostas sobre toda a população atingida pelo rompimento da Vale e por atividades minerárias em geral”.
Imagem destacada: Luiz Santana/ALMG
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