Instituto Guaicuy

Pessoas atingidas acompanham primeiro dia do julgamento do processo criminal sobre o rompimento da barragem da Vale

24 de fevereiro, 2026, por Joana Tavares

“Cada família sabe o que enterrou”.

Uma esposa que teve que contar para os dois filhos que o pai saiu pra trabalhar, mas nunca ia voltar. Uma mãe que perdeu o filho único, que realizava o sonho de trabalhar numa grande empresa e era o orgulho da família. Uma irmã que não pôde acariciar o rosto da irmã que teve que ser enterrada em caixão fechado, depois de 30 anos de empresa.

Kenya Paiva Lamounier Silva, esposa da vítima Adriano Aguiar Lamounier; Andressa Aparecida Rocha Rodrigues, mãe de Bruno Rocha Rodrigues; e Natália de Oliveira, irmã de Lecilda de Oliveira, falaram por cerca de 40 minutos cada. Os depoimentos aconteceram nesta segunda (23). Elas trouxeram em suas falas a decepção com a empresa, que sequer telefonou para os parentes de seus funcionários, que tiveram que ter notícias pelos comunicados públicos. 

“A Vale não entrou em contato. não chegou aquele telefonema esperado. Me senti como se fosse órfã da Vale. Nos primeiros dias, a gente achou que eles poderiam estar vivos. Demorou um pouco pra ficha cair que as pessoas não teriam chance. A gente queria tanto acreditar que a gente achava que tinha chance. Tem pessoa que foi encontrado só um pedaço. A Vale tirou a dignidade de poder sepultar, poder velar nossos mortos. Todo mundo saiu pra trabalhar inteiro. As partes foram identificadas, não foram corpos inteiros. Cada família sabe o que enterrou”, disse uma familiar.

O início da audiência foi marcado por dois pedidos de advogados de defesa de alguns dos acusados para suspender o ato judicial. Os pedidos foram negados pela juíza Raquel Vasconcelos Alves de Lima, que abriu os trabalhos, concedendo o direito de perguntas para todos os advogados.

Nessa fase da ação penal, serão ouvidas 170 pessoas com a finalidade de produção de provas orais, que definirão a convocação da juíza responsável. Entre os ouvidos, estão 25 testemunhas de acusação, sendo 15 entre sobreviventes e parentes de vítimas, além de 145 testemunhas indicadas pela defesa dos acusados.

A audiência, realizada no auditório do Tribunal Regional Federal 6 (TRF6), foi transmitida para a imprensa cadastrada e acompanhada por familiares das vítimas. Pessoas atingidas de todas as regiões da Bacia do Paraopeba participaram de um ato do lado de fora do auditório, cobrando justiça e que a sociedade nunca esqueça do que aconteceu em 25 de janeiro de 2019.

“Sou pescadora de Pompéu e a gente está aqui hoje para acompanhar o início do julgamento. Alguém tem que pagar por isso. A pressão popular tem surtido efeito. Não podemos deixar a sociedade achar que não tem ninguém lembrando mais desse crime. A gente não vai esquecer nunca”, diz Quésia Martins, que participou do ato na porta do Tribunal, junto com sua filha adolescente e outros moradores das Regiões 4 e 5.

No ato, diversas falas lembraram que toda a Bacia era atingida e as empresas e os 15 réus precisam ser responsabilizados e punidos. 

Próximos passos

Ao todo, estão previstas 76 audiências na sede do TRF6, até 27 de maio de 2027. Na próxima sexta, dia 27/2, a juíza ouvirá mais três testemunhas, parentes de vítimas fatais e que foram indicadas pela acusação. Em março de 2026 serão ouvidas mais 14 testemunhas. O calendário pode ser acessado aqui

O juiz federal José Carlos Machado, em coletiva de imprensa, explicou que esse prazo pode ser reduzido, a depender da quantidade de perguntas dos advogados e do Ministério Público. “Estamos organizados para 76 audiências, com toda a estrutura para acompanhamento também das familiares e sociedade interessada”, explicou. “Essa fase é essencial para o julgamento, instrução, testemunhas ouvidas, provas colhidas. Sem isso, ficaria muito difícil para a julgadora decidir sobre o mérito do processo”, explica.

Confira a ata da audiência

Imagem de Fabiano Lana/Guaicuy

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