Você sabia que uma parte do Acordo Judicial de Reparação pelo rompimento da barragem da Vale, firmado em 2021 entre a mineradora e o poder público, prevê a viabilização de projetos nas comunidades atingidas pelo rompimento da barragem em Brumadinho? O Anexo 1.1 tem como objetivo fomentar a geração de trabalho e renda, e a reparação de danos coletivos e socioeconômicos.
Ao todo, serão destinados três bilhões de reais para projetos de demandas das comunidades, sendo um bilhão específico para linhas de crédito e microcrédito para pessoas atingidas. As propostas serão escolhidas pelas comunidades através dos Conselhos Locais e Regionais, o que traz esperança de melhorias concretas nos territórios.
Na região de Curvelo e Pompéu, por exemplo, já existem ideias ligadas à agricultura e horticultura, especialmente hortas comunitárias e familiares. Além de incentivar práticas agroecológicas e o cultivo sem veneno, essas iniciativas podem contribuir para a preservação do solo e da água, e ainda fortalecer a soberania alimentar. Esses projetos poderiam reduzir a dependência de produtos externos, estimulando o consumo local e gerando renda, abrindo caminho para a criação de cooperativas e agroindústrias familiares.
Outra proposta em discussão é a construção de cozinhas comunitárias, que poderão garantir acesso a uma alimentação saudável e acessível, promovendo a troca de saberes e de produtos, e valorizando a cultura alimentar mineira. Esses espaços preservam receitas tradicionais, criam oportunidades de capacitação em gastronomia e empreendedorismo — sobretudo para mulheres — e poderiam, ainda, fornecer alimentos para escolas, creches e programas sociais, fortalecendo também a economia solidária.
O turismo também aparece como um campo estratégico. Projetos para o turismo de pesca esportiva e turismo de base comunitária são vistos como alternativas viáveis, mesmo diante do comprometimento da qualidade da água e do peixe no Rio Paraopeba. No entorno da Represa de Três Marias, por exemplo, essas atividades movimentavam hospedagens, transportes, restaurantes e toda uma cadeia de serviços, podendo voltar a valorizar patrimônios históricos, festas populares e manifestações culturais. O turismo pode ainda ter um caráter educativo, mostrando como eram os territórios antes do rompimento, como estão hoje e quais são os desafios de preservação, reforçando a ligação das comunidades com seus territórios.
Outras iniciativas estão relacionadas ao fortalecimento das cadeias produtivas locais. Projetos de avicultura podem incluir pequenos produtores, garantindo alimentos acessíveis como frango e ovos, ao mesmo tempo em que incentivam a inovação tecnológica. A formação de associações e cooperativas ajuda a reduzir custos e permite o aproveitamento de subprodutos, como o esterco para adubação ou produção de biogás.
Já a meliponicultura e a apicultura surgem como alternativas de baixo custo, gerando produtos como mel, própolis, pólen e cera, ao mesmo tempo em que contribuem para a polinização e a preservação ambiental. Essas práticas também podem se integrar ao turismo rural e ecológico, agregando valor à produção local.
A piscicultura também é importante para a região, oferecendo uma alternativa diante da inviabilidade da pesca tradicional. Essa cadeia produtiva envolve desde a criação de alevinos até o processamento e a distribuição, gerando empregos e renda em várias etapas e garantindo proteína de qualidade para consumo local, abastecimento de centros urbanos e até mesmo exportação.
Mais do que iniciativas isoladas, é fundamental que os projetos sejam planejados e executados em rede. A capacitação das pessoas atingidas, o fortalecimento de associações e cooperativas e o acesso a políticas públicas, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar e o Programa de Aquisição de Alimentos, são condições essenciais para que essas ações se sustentem a longo prazo. Assim, será possível garantir que os investimentos tragam não apenas renda, mas também qualidade de vida, preservação ambiental e valorização cultural, fortalecendo os territórios e suas comunidades.
Texto escrito em colaboração com o Escritório de Projetos Socioeconômicos do Instituto Guaicuy
Imagem: Paulo Marques/Guaicuy.
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