A história de uma família duplamente atingida pela mineração
Famílias que perderam tudo em Bento Rodrigues e tentaram começar de novo em outro lugar. Que buscaram refazer a vida, reconstruir rotinas, tornar uma casa em lar enquanto aguardavam o reassentamento definitivo no Novo Bento Rodrigues. Para algumas delas, esse recomeço aconteceu em Antônio Pereira, distrito vizinho, na cidade de Ouro Preto. Foi assim para a família Quintão.
Depois do rompimento da barragem de Fundão, em 2015, Ana Quintão, seu esposo e filhos deixaram Bento Rodrigues levando quase nada além do próprio corpo e da memória. Em Antônio Pereira, encontraram acolhimento, vizinhança, igreja, conversa no portão. O que a família não imaginava era que, poucos anos depois, em 2020, a Barragem Doutor, da Vale, teria seu nível de risco elevado para o grau 2, em uma escala que só vai até 3, causando o acionamento do Plano de Ação de Emergência para Barragens de Mineração (PAEBM) e um novo tipo de terror em quem vive nas proximidades.
A partir de 2020, tiveram início as obras de descaracterização da barragem, que, longe de significarem tranquilidade imediata, passaram a gerar novos danos no cotidiano da população. Além disso, o som da sirene, arauto do desastre e gatilho para uma família que já havia passado pelo horror do rompimento de uma barragem, voltou a ressoar. Um chamado direto à memória do rompimento que havia destruído Bento Rodrigues.
“O dia que mais marcou pra mim sobre essa questão do risco de rompimento da Barragem Doutor foi o dia que a sirene tocou lá. A gente recordou… eu não estava no rompimento da barragem de Fundão, mas a minha mãe estava. E nesse dia da sirene eu estava em casa, no Pereira, com a minha mãe. Então me recorreu todo aquele dia 5 de novembro, todo aquele sofrimento, toda aquela preocupação com a minha família… me veio aquele aperto no peito. As pessoas vieram trazer chá para acalmar minha mãe; ela ficou muito abalada, muito desorientada, porque estava no Bento no dia do rompimento. Ela passou por tudo, ela viu tudo. Eu senti aquilo com minha mãe, aquela angústia, aquela dor. Vivi aquilo duas vezes.” declarou Samara Quintão, atingida de Bento Rodrigues e, agora, duplamente atingida também pela Vale em Antônio Pereira.

Foto: Gabriel Nogueira/Instituto Guaicuy | Ana Lúcia e Antônio Quintão mostram fotografias de Bento de origem nas paredes da casa nova.
Ana Quintão, mãe de Samara, fala de Antônio Pereira com afeto. “Morar na Vila Samarco [apelido da Vila Residencial Antônio Pereira] foi bom, porque lá remete um pouquinho ao Bento, né? É um lugar sossegado. Às vezes com medo, porque morava debaixo de outra barragem. Teve aquele alarme aquela vez lá, tiraram muita gente de lá. Mas lá é muito bom de se morar. Gosto muito da Vila, de Antônio Pereira. O povo de lá é muito quente, quando cheguei fui tão bem acolhida. Somos acolhidos até hoje. A gente chega na igreja, aquele povo adora a gente. Foi muito bom, não deu para sentir tanto [o impacto] por causa desse calor humano que a gente recebeu”, contou.
A vida da família Quintão mudou muito desde então. Samara casou, Ana e seu marido, Antônio, agora estão reassentados no Novo Bento, mas a memória permanece. Ela resiste nos pequenos objetos salvos da lama, nos artefatos religiosos, nas relíquias improvisadas que ligam passado e presente. Uma panela resgatada entre os escombros. Uma tábua de vidro. Uma porteira fincada na frente da casa nova como marco simbólico. São, para sempre, de Bento Rodrigues.
“Essa panela eu tinha comprado pouco tempo antes do rompimento. Eu gosto de panela grande e pedi o Antônio para comprar para mim. Quando aconteceu o rompimento e depois reassentaram a gente aqui, o Antônio voltou lá um dia e achou um pedacinho do tanque da pia; as minhas panelas ficavam guardadas debaixo do tanque. Ele quebrou o vidro e conseguiu tirar essa panela pra mim e uma tábua de carne de vidro que minha menina tinha me dado de presente de Natal. Aí ele trouxe.” conta Ana. “É minha relíquia, minha lembrança que tenho do Bento… A porteira também. O Antônio conseguiu achar lá na Gruta de Nossa Senhora Aparecida. Ele foi para lá e avistou ela, entrou no meio da lama, pediu aos colegas para ajudarem, amarraram ela e puxaram. Pedi para colocar ali porque é a única lembrança que sobrou da casa da gente. É um pedacinho do Bento aqui. Agora só ficam as lembranças, Bento igual era nunca mais”.

Foto: Arquivo família Quintão | Casa da família Quintão em Bento Rodrigues de origem, antes do rompimento da barragem em 2015. Na imagem é possível ver o portão recuperado que hoje está na fachada da nova casa, no reassentamento.

Foto: Gabriel Nogueira/Instituto Guaicuy | Antônio e Ana Lúcia em frente a sua casa nova, onde colocaram o portão encontrado em Bento Rodrigues, após o rompimento da barragem de Fundão, da Vale, em 2015.

Foto: Gabriel Nogueira/Instituto Guaicuy | Ana Lúcia segura a panela que seu marido, Antônio, conseguiu recuperar dos escombros de Bento Rodrigues após o rompimento da barragem em 2015.
No entanto, embora Bento Rodrigues e agora também Antônio Pereira sejam para sempre parte da história e da origem da família Quintão, Samara já não é reconhecida formalmente como parte da comunidade. Com a definição do marco temporal de 2019 para a garantia do direito à moradia de novos núcleos familiares no reassentamento, Samara, que se casou em 2023, não foi incluída.
Além disso, parte das pessoas atingidas do Bento Rodrigues optou por não permanecer no Novo Bento e venderam suas casas a novos moradores. A comunidade que se formou já não é a mesma e Samara teve, inclusive, seu pedido de participação no grupo de WhatsApp dos moradores do Novo Bento negado.
Ainda assim, ela não se sente menos pertencente nem menos atingida.
“’Atingida’ é uma palavra que ganhamos depois do rompimento da barragem. Ser atingida… Eu acho essa uma palavra muito forte e que hoje não tem como tirar da minha vida. Aconteceu uma coisa muito ruim e que mudou todo o meu modo de viver, toda a minha vida. Significa também que aquilo que foi atingido na minha vida levou minha história também junto, e que não vai voltar mais. Que eu vou continuar sendo atingida, por mais que só fiquem memórias. Ainda vou continuar sendo atingida sempre…” conta Samara.

Foto: Leo Souza/Instituto Guaicuy | Samara Quintão acende uma vela para São Bento, padroeiro de Bento Rodrigues.
Mas com o duplo atingimento, em Bento Rodrigues e Antônio Pereira, vem também a coragem e a fé, um traço da família Quintão. E a memória, essa, que fica.
“Ainda vêm as perguntas, a memória. Nunca vou esquecer de lá. Mas Deus nos deu a chance de viver, da minha família sobreviver. Temos que seguir em frente, mas não podemos esquecer não. A luta continua. Devemos lutar por aquilo que é nosso, por direito, e pelo que não foi reparado até hoje da forma que deveria” Samara Maria Quintão, moradora atingida de Bento Rodrigues e Antônio Pereira.
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