Paraopeba
17ª edição do Boletim Piracema está disponível!
6 de outubro de 2025
Entrevista publicada originalmente no Piracema 17.
Sávio Alves de Paula escolheu para a entrevista o primeiro lugar que conheceu em Fazendinhas Baú, comunidade na zona rural de Pompéu. Foi naquele local, na beira do Paraopeba, que ele e vários amigos dos Alcoólicos Anônimos decidiram acampar e pescar em 2013. Sávio conta que um deles demorou 5 horas para montar a barraca, mas ainda assim, todos se divertiram e pescaram muito.
12 anos depois, o Paraopeba não é mais o mesmo, nem Sávio. O rio agoniza com o rompimento da barragem, e apenas sua vista pode ser aproveitada por quem lá passa. Sávio tem dedicado uma boa parte do seu tempo à luta pela reparação e à organização comunitária. Agora, ele faz parte da Comissão Baú e Piau e também da Associação dos Amigos de Fazendinhas de Baú.
Qual o seu sentimento ao olhar pro rio?
É um pouco de saudade com tristeza, né? Porque aconteceu o rompimento lá da barragem em Brumadinho, no dia 25 de janeiro de 2019, e a gente não acreditava que o rejeito ia chegar aqui nessa área tão bonita e tão importante pra gente. E hoje a gente tá aqui só olhando, a gente não usa mais o rio para pescar, como área de lazer. Mas a gente espera que isso mude com a reparação. Que tenha uma reparação justa. Para que isso aqui volte a ser o que era antes. Para a alegria de todos, esse lazer de pesca que a gente tanto ama, que a gente tanto gosta.
Quando você comprou seu terreno aqui?
Desde o acampamento, gostamos muito daqui. Foi tão bom que nós começamos a vir em todos os feriados prolongados. A gente já se programava para vir para cá. Na época, aqui tinha muito peixe, a gente conseguia levar muito peixe para casa. No ano de 2014, com mais uma dessas nossas pescarias, a gente ficou sabendo que estavam vendendo loteamentos aqui. Nós juntamos a turma e compramos uma área de lazer para fazer um rancho. Continuamos vindo, e isso virou sequência. A gente não pensava em outra coisa pra fazer, a não ser vir para cá.
E como foi sua mudança pro Baú?
A minha vinda para cá em definitivo foi justamente por problema de saúde que eu estava passando, muito sério. Aqui, eu conheci pessoas que me ajudaram bastante, com muita oração. Eu vi que a minha recuperação aqui estava melhor do que lá [em Belo Horizonte]. Inclusive, em 2021, quando eu passei por outra cirurgia, eu tive que colocar uma sonda para me alimentar, e minha família não queria que eu viesse para cá. Eu falei: “Não, lá que é meu lugar”. É porque aqui é o lugar que eu escolhi para morar, aqui é um lugar tranquilo.
E, realmente a recuperação da minha saúde aconteceu aqui. Tive muita gente me ajudando, é uma comunidade muito boa. São pessoas realmente amigas, que estavam se preocupando comigo na época. E aqui eu me encontro até hoje, apesar de todos os problemas que a gente tem enfrentado. Mas nós não desistimos. A gente sabe que uma hora tudo vai chegar no seu lugar.
Eu sou nascido e criado em Belo Horizonte. Sempre em Belo Horizonte. Mas sempre e com um sonho de um dia morar na zona rural, de um dia morar na beira de um rio, para fazer aquilo que eu mais gosto, que é o lazer de uma pescaria. E hoje, como eu moro e vivo aqui, quando eu chego lá em BH eu fico doido para voltar. Porque me faz bem esse lugar aqui, me faz bem tanto mentalmente como para saúde.
Agora você faz parte da associação comunitária. Como foi esse processo?
A gente enfrenta muitos problemas de água e de luz aqui no Baú, mas, graças a Deus, conseguimos tirar do papel esse projeto que estava na gaveta, que é fundar a associação. Ela serve para gente ir em busca de nossos direitos, ela nos dá mais ânimo. Através dessa associação, eu tenho certeza que a gente vai conseguir realizar os sonhos de todo mundo.
Com a chegada do ano passado de um companheiro que se aposentou e veio morar aqui, que é o presidente da associação, o Paulo Augusto, registramos a associação. Estamos procurando a Prefeitura, a Câmara dos Vereadores. O próprio Guaicuy nos ajuda bastante com seus advogados. A gente vai buscar ajuda para colocar isso aqui para andar. Porque o povo aqui ficou muito sofrido com as promessas. A gente está feliz com a associação, ela está fazendo um trabalho bastante transparente. São pessoas de boa índole, com muito caráter. Então nós vamos conseguir fazer dessa comunidade aqui uma comunidade feliz.
Eu faço parte da diretoria, faço um trabalho social dentro da comunidade. Se a gente souber que tem alguém doente, ou que esteja passando por uma dificuldade, a gente vai procurar ver o que ela precisa. Se precisa de alimento, se precisa de remédio. Se precisa que a gente vá marcar uma consulta. Então, nossa preocupação é essa. Mas, graças a Deus, a gente tá com pouca demanda de pessoas com problemas de saúde. O que tá tendo aqui, hoje tá dando pra gente resolver com rapidez.
E o que você tem achado do processo de reparação?
A reparação justa até hoje ainda não foi feita. Muita coisa tem que se fazer. Eu fico preocupado com a morosidade das coisas, para resolver o que tem que ser resolvido. E eu fico pensando também: “quantos já morreram nesses seis anos do rompimento? Quantos já morreram? Quantos vão precisar morrer sem ter a reparação justa daquilo que é necessário?”. Então, essa morosidade aí é uma coisa que me preocupa bastante.
É um sentimento de abandono, de tristeza. Mas a gente não perdeu a fé, a gente não perdeu a esperança. Dentro desse contexto todo aí, a gente tem as Assessorias, que estão trabalhando com a gente, que estão apoiando a gente, que em nenhum momento deixaram a gente sem auxílio. E chegou a associação, também faço parte da Comissão. Com muita gente boa, com muita gente que tá lutando. Então, isso aí incentiva a gente a não parar, sabe? Eu tenho certeza que nós vamos conseguir.
Imagem: Paulo Marques/Guaicuy.
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