Por Cláudia Marques

Região da cratera do vulcão de Poços de Caldas tem cerca de 100 pedidos de pesquisa de solo para terras raras. Foto: Thelmo Lins.
Os elementos químicos conhecidos como terras raras, conjunto de minerais estratégicos essenciais para tecnologias de ponta e para a transição energética, tornaram-se um dos principais focos da geopolítica mundial. Descritas como o “novo petróleo”, estão presentes em carros elétricos, turbinas eólicas, celulares, equipamentos militares, satélites e sistemas de inteligência artificial. Assim como o petróleo bruto, porém, têm pouco valor isoladamente: especialistas alertam que a transição energética depende também de outros minerais críticos, como lítio e níquel, exigindo uma política industrial ampla e integrada.
O Brasil concentra cerca de 25 milhões de toneladas desses minerais, a segunda maior reserva do mundo, atrás apenas da China, com 45 milhões de toneladas. Apesar desse potencial, o país responde por apenas cerca de 1% da produção global e, historicamente, exporta matéria-prima com baixo valor agregado, reproduzindo um padrão econômico dependente que remonta ao ciclo colonial. Enquanto isso, a China domina aproximadamente 70% da produção mundial e quase 90% da capacidade de refino, etapa de maior valor econômico e tecnológico da cadeia.
No Sul de Minas Gerais, onde estão algumas das reservas mais promissoras do país, comunidades, pesquisadores e o Ministério Público travam uma batalha judicial contra projetos de mineração que avançam em velocidade incompatível com a complexidade dos riscos envolvidos.
Apesar do nome, terras raras não são terras nem exatamente raras. O termo reúne 17 elementos químicos: os 15 lantanídeos, além de escândio e ítrio, encontrados em minerais como monazita, bastnaesita e xenotímio. São considerados críticos não por escassez geológica, mas pela complexidade e pelo alto custo dos processos de extração, separação e purificação. Dos mais de 200 minerais que contêm Elementos de Terras Raras (ETR), apenas alguns têm potencial econômico e são explorados atualmente. Em muitos casos, os ETR aparecem como subprodutos de depósitos de nióbio e fosfato.
O atual estado da indústria de minerais de ETR reflete que embora eles sejam relativamente abundantes na crosta terrestre, a sua concentração em minerais economicamente viáveis é rara, o que restringe a produção a poucos minerais e depósitos específicos.

Lítio extraído em Minas Gerais. Foto: Gil Leonardi/Reprodução/Agência Minas.
A demanda cresce rapidamente à medida que países buscam reduzir a dependência de combustíveis fósseis e expandir tecnologias digitais. Um carro elétrico, por exemplo, requer seis vezes mais minerais do que um veículo convencional; uma usina eólica exige nove vezes mais minerais do que uma usina a gás.
Segundo o relatório Perspectivas Globais de Minerais Críticos 2025, análise da Agência Internacional de Energia (AIE), a demanda por ETR pode aumentar seis vezes até 2040. Para lítio e cobalto, o crescimento projetado varia de dez a vinte vezes até 2050, impulsionado pelos veículos elétricos.
Levantamentos do Serviço Geológico do Brasil (SGB) indicam ocorrências de terras raras em ao menos 12 estados, com destaque para Minas Gerais, Goiás e Amazonas. As maiores reservas estão associadas a rochas alcalino-carbonáticas em Araxá (MG), Tapira (MG) e Catalão (GO), além de depósitos de argila iônica em Poços de Caldas (MG) e Seis Lagos (AM).
O principal polo das terras raras em Minas Gerais está no Planalto Vulcânico de Poços de Caldas, uma das áreas mais promissoras do mundo para exploração. A região, no entanto, carrega passivos ambientais. Foi lá que funcionou, por décadas, o complexo mineroindustrial das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), com uma mina de urânio que gerou rejeitos radioativos.
É nesse território que as mineradoras australianas Meteoric Resources e Viridis Mining and Minerals obtiveram licenças ambientais prévias para projetos em terras raras. Ambas enfrentam questionamentos judiciais e investigações do Ministério Público por supostas irregularidades no licenciamento.
O Ministério Público Federal (MPF) chegou a recomendar a suspensão do licenciamento de novos projetos de terras raras na área devido à proximidade com esses depósitos. Embora laudos técnicos indiquem níveis de radioatividade abaixo do limite no material a ser explorado, autoridades e ambientalistas criticam os empreendimentos por potenciais riscos ambientais.

Planalto Vulcânico de Poços de Caldas, com as regiões onde atuam e pretendem atuar a Meteoric e a Viridis. Ambas são pequenas em comparação a tantas outras que pretendem atuar em ETRs, o que leva a crer que elas serão vendidas para grandes mineradoras. Mapa: Daniel Tygel.
Daniel Tygel, mestre em física teórica e presidente da Área de Proteção Ambiental (APA) da Pedra Branca, em Caldas, cidade vizinha a Poços de Caldas e também alvo de projetos minerários, contesta as afirmações de que não haveria contaminação radioativa na área. Segundo ele, cerca de 15 mil toneladas de rejeitos permanecem armazenadas no local, parte em barracões e parte na Barragem de Rejeitos. “Já houve carreamento de sólidos da bacia e, em determinado momento, ocorreu espalhamento de radioatividade”, afirma.
“Inclusive, foram os próprios funcionários que conduziram os tambores de São Paulo para cá, para a INB de Caldas; esse rejeito radioativo não foi gerado pela INB, não é um passivo nosso. Na década de 90, vários dos funcionários morreram em decorrência de câncer por esse contato e outros têm vários tipos de deficiência: auditiva, visual, doenças crônicas…”.
Há uma contradição fundamental no centro do discurso da transição energética. Os minerais considerados essenciais para a descarbonização da economia têm, eles mesmos, uma pegada ambiental severa. Um artigo publicado pela Harvard International Review, em agosto de 2021, estima que cada tonelada de terra rara produzida gera 13 kg de poeira, entre 9,6 mil e 12 mil metros cúbicos de gás residual, 75 metros cúbicos de águas residuais e uma tonelada de resíduo radioativo. Os pesquisadores chamam a atenção para o “paradoxo das terras raras”: elementos essenciais para tecnologias verdes, mas com elevado custo ambiental em sua produção.
No caso dos depósitos de argila iônica encontrados no Sul de Minas, o método de exploração proposto é a lixiviação. O processo consiste basicamente em atacar o solo com uma solução química (ácido sulfúrico e sulfato de amônio) para capturar os íons metálicos. Essa solução percola pelo terreno e dissolve não apenas os elementos de terras raras, mas também outros metais, inclusive radioativos, como tório e urânio.
A lixiviação é comum na exploração de terras raras no mundo. Em depósitos rochosos, exige etapas anteriores, como explosão, britagem e moagem da rocha, além do uso de ácidos mais fortes. Em Minas Gerais, o processo pode ser feito diretamente no solo. “Na China, onde esse tipo de depósito é explorado, a lixiviação é feita muitas vezes por gravidade: aplica-se a solução química diretamente no terreno e ela percola pelo solo, carregando os elementos químicos”, explica Daniel.
O problema é que esse método pode gerar grande risco de contaminação ambiental, especialmente de águas superficiais e subterrâneas, porque os produtos químicos e os metais mobilizados podem se espalhar no ambiente. Por isso ele exige controle extremamente rigoroso, o que levanta muitas preocupações quando aplicado em áreas sensíveis ou próximas a estruturas já contaminadas, como é o caso da região da INB em Caldas.
Lia Porto, engenheira química e professora de Engenharia Ambiental da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), chama atenção para as incertezas do processo: “Ainda não foram feitos estudos direcionados para levantamento do nível de comprometimento do sistema fechado de solução ácida usado no processo de lixiviação desses minérios. As argilas retornarão às cavas. Pelo que descrevem, ela terá pH ácido, podendo haver lixiviação ambiental após o retorno. As argilas já possuem pH ácido, mas o processo reduzirá ainda mais o pH.”
Na China, onde esse tipo de exploração é praticado há décadas, os impactos ambientais são documentados. Um grupo de pesquisa formado pela Chinese Academy of Sciences e pelo Wuhan Institute of Technology publicou, em 2021, um artigo discutindo a contaminação de solos e águas subterrâneas em regiões de mineração. “Mas ainda faltam dados para a realidade brasileira”, alerta Yuri Ribeiro, doutorando em Geologia pela Universidade de Brasília (UnB). “Os dados são para o solo, vegetação e ritmo chinês, locais em que ocorreram muitos pontos de garimpo ou mineração ilegal”.
Para Yuri, que atualmente se dedica à pesquisa “Terras raras em solos”, a sociedade moderna já está contaminada por diferentes tipos de espécies inorgânicas, orgânicas e organometálicas tóxicas. “Muitos elementos que não eram comumente usados no passado, como os elementos terras raras (ETR), estão sendo cada vez mais utilizados em indústrias modernas e em diversas aplicações tecnológicas”, explica o pesquisador.
Um exemplo é a contaminação decorrente do descarte de enormes quantidades de lixo eletrônico, que vem liberando rapidamente grandes quantidades de ETR no subsolo e nas águas subterrâneas. Além disso, quantidades significativas desses elementos também estão entrando nos solos agrícolas por meio de fertilizantes à base de fosfato. Para Yuri, na mineração, não é diferente. Desmatamento, lixiviação e movimentação de material são apenas alguns dos impactos que podem ser citados.
O avanço do setor ocorre em meio a debates sobre soberania mineral, regulação ambiental e industrialização. Na Câmara dos Deputados brasileira, o deputado Patrus Ananias apresentou o PL 500/2026, que propõe a criação de uma reserva nacional de terras raras no Sul de Minas e em São Paulo, com licenciamento federal sob responsabilidade do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Já o deputado Miguel Ângelo protocolou o PL 534/2026, que prevê moratória nacional de um ano na exploração, até a definição de uma política nacional para o setor. O PL defende que recursos estratégicos não podem ser explorados sem planejamento, transparência, segurança ambiental e garantia de soberania nacional. A proposta foi construída em diálogo com a Aliança em Prol da APA de Pedra Branca, o Movimento Nacional pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e o Projeto Manuelzão.

Articulação entre coordenador do projeto Empoderamento Jurídico do Manuelzão, Pedro Andrade, deputado federal Patrus Ananias e presidente da Área de Proteção Ambiental (APA) da Pedra Branca, Daniel Tygel. Foto: Vinicius Reis Ascom/SGPR.
Nos Estados Unidos, em fevereiro, o presidente Donald Trump lançou o “Projeto Vault”, plano estratégico para criar um estoque nacional de terras raras e outros minerais críticos, com investimentos estimados em 12 bilhões de dólares, inspirado na reserva estratégica de petróleo criada na década de 1970. O governo norte-americano também planeja utilizar um programa de inteligência artificial do Pentágono para ajudar a definir preços de referência para minerais críticos, enquanto articula uma zona global de negociação de metais.
O Brasil passou a integrar essas articulações internacionais, inclusive em iniciativas diplomáticas que envolveram autoridades subnacionais, como o governador de Goiás, Ronaldo Caiado.
Para Yuri, o debate em torno dos ETRs frequentemente está atrelado à meta de atingir uma rede de produção com zero emissão de carbono, a chamada economia verde. “No entanto, o que chama a atenção é que, por trás da imagem de que os países demandantes de terras raras agem movidos por preocupações ambientais, escondem-se realidades mais cruéis”.
Ele cita como exemplo os Estados Unidos: “A imprensa tem noticiado que, na atual gestão de Donald Trump, o país cancelou 22 bilhões de dólares em investimentos destinados a projetos verdes, ou seja, o interesse real não é a sustentabilidade”. O outro lado dessa questão é a indústria bélica. Terras raras são utilizadas em caças F-35, submarinos, lasers, satélites, mísseis Tomahawk, radares, sistemas de guiagem e sensores de precisão empregados em mísseis modernos, incluindo os supersônicos, além de outras tecnologias de defesa.
No início de março, o Japão entrou na corrida. O navio de pesquisa científica Chikyu extraiu amostras de sedimentos saturados de terras raras a 6 mil metros de profundidade nas águas próximas a Minami Torishima. As primeiras estimativas apontam para mais de 16 milhões de toneladas, o que pode colocar o país como detentor da terceira maior reserva mundial.
Em Minas Gerais, o governo estadual adotou incentivos para atrair investimentos, como o regime tributário especial concedido à mineradora St. George Mining com o projeto Araxá, com benefícios fiscais para equipamentos e insumos. A mineradora, também australiana, adquiriu o projeto Araxá em fevereiro de 2025, focado em nióbio e terras raras. A estratégia de incentivos busca posicionar o estado como fornecedor para mercados ocidentais, mas intensifica críticas sobre riscos socioambientais e ausência de planejamento nacional integrado.
No caso da Meteoric e da Viridis, o processo foi a toque de caixa e ignorou o relatório que apontava vários problemas e inconsistências, inclusive questões relacionadas à água e à proximidade de territórios de povos originários. Mesmo assim, em tempo recorde, a Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) elaborou os dois pareceres únicos, considerados cheios de lacunas e ilegalidades.
Daniel Tygel questiona os licenciamentos e incentivos no estado. “É importante entender como funciona o licenciamento em Minas Gerais: depois que sai o parecer único favorável, o Copam [Conselho Estadual de Política Ambiental] praticamente sempre vota a favor, porque o conselho é dominado pelos interesses das mineradoras”, critica.
Paralelamente, organizações da sociedade civil têm recorrido à Justiça. O Projeto Manuelzão, por meio do Instituto Guaicuy, ingressou com ações contra as duas mineradoras, questionando as licenças concedidas pela Feam e defendendo a suspensão dos empreendimentos até a realização de estudos mais aprofundados, especialmente sobre a distância dos empreendimentos de populações originárias, impactos cumulativos e riscos à água.
Especialistas avaliam que o setor vive um “vácuo regulatório”, com legislação ainda incompleta diante da velocidade do interesse econômico global pelas terras raras. O debate, portanto, ultrapassa a mineração. Envolve política ambiental, geopolítica, transição energética, desenvolvimento industrial e o futuro econômico do país, especialmente em regiões sensíveis como o Sul de Minas, onde recursos hídricos, comunidades e atividades produtivas já convivem sob pressão.
“Para não haver a destruição ambiental que eles fazem no local e, ao mesmo tempo, não sermos apenas exportadores de matéria-prima bruta, o primeiro caminho é que o Brasil conheça muito bem os métodos disponíveis para a exploração de terras raras”, defende Daniel. “Outro passo é definir uma política nacional que garanta e gere riqueza e desenvolvimento no país e não reproduza o modelo minerário exportador de matéria-prima.”
Edição do texto: Enaile Almeida
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