Na tarde de 22 de agosto, um sábado, muita gente estava trabalhando na organização do espaço em frente à Paróquia São Rafael Arcanjo, na sede da cidade de Paineiras. Todo mundo se ajudava na montagem das estruturas e na decoração da Festa de Nossa Senhora do Rosário, que acontece anualmente na cidade. As atividades começaram com a realização de uma missa na noite de sexta-feira e foram até o fim do dia no domingo.
Quem orquestrava a arrumação era Aldenice Oliveira da Silva, presidente da Associação do Congado de Nossa Senhora do Rosário na cidade. Toda a sua família coloca a mão na massa e ajuda a fazer o evento acontecer: “A Festa de Nossa Senhora do Rosário, pra minha família, é uma coisa muito importante porque vem das raízes dos meus avós. Falar deles me emociona porque desde que eu me entendo por gente, desde que eu entendo de congado, eu vi o meu tio trabalhar na festa. Em todas as procissões, ele estava descalço e aquilo me chamava muita atenção, porque eu via que ele tinha uma fé muito grande. E daí eu comecei a gostar e fui entrando…”.
O marido dela, João Paulo Xavier Neto, também faz parte. Ele conta que passou a se envolver na preparação depois do casamento, mas que seus pais sempre foram festeiros, ajudando na organização e na arrecadação de mantimentos. Sua mãe e ele próprio também já foram congadeiros, e foi a partir disso que ele passou a ver o evento de outra forma: “Antes eu achava que era uma festa normal da cidade. Hoje eu já vejo totalmente diferente, através da fé e devoção. Foi pelo convívio com as guardas que eu passei a entender mais um pouco do sentido da festa. E com isso a gente vai igual árvore, só enraizando”.
O mesmo aconteceu com Vanessa Leonídia Ribeiro, que foi a Rainha de Nossa Senhora do Rosário na Festa deste ano. “Eu era pequenininha e dançava. Aí depois eu fui crescendo, a fé vai aumentando… E tudo que eu peço, ela [Nossa Senhora do Rosário] sempre me atendeu. Eu tenho muita fé, porque é ela que me protege mesmo, me guia. Ela ilumina a minha vida, dos meus dois filhos. Na hora que eu escuto o batido da caixa, meu coração treme, sabe? É muita emoção. Muita”.
Na cidade, antes mesmo da música começar, cada toque de pé no chão dos congadeiros que usam a gunga, um chocalho preso aos tornozelos, já vai dando ritmo à festa. Ainda no sábado, as guardas acompanharam os reis e rainhas de suas casas até as imediações da igreja, onde os mastros de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito foram levantados à noite.
Segundo a mãe de Aldenice, Baldoína Maria de Oliveira, foi a sua avó que começou com a tradição na região, história que se mistura com a própria ocupação do território. Ela conta que a família não queria mais morar em Martinho Campos e, em 1906, viajaram de carro de boi parando nas estradas, fazendo comida, dormindo, até chegar a um ponto um pau de paina – onde hoje fica a Prefeitura de Paineiras – e três casas nas redondezas. Esses moradores os ajudaram e, no dia seguinte, seguiram apenas mais 10 km de viagem até o local onde compraram uma terra e foram morar.
Quando padres missionários passavam pela região, rezavam missas e tinha o congado. Com o tempo, juntaram dinheiro para construir uma capela na região e passaram a fazer as próprias festas. “A minha bisavó e minha avó não davam conta de ficar sem rezar o terço e fazer as festividades de Nossa Senhora. Toda vida elas tiveram essa fé com Nossa Senhora do Rosário. E nisso aí eu também tenho, né? Porque nunca tive outra devoção”, lembra D. Balduína. “Toda vida eu gostei demais. Na hora que eles batem aqueles tambores, aquelas caixas, pra mim não tem um trem melhor, não. E quanto mais barulho faz, melhor eu acho. Eu posso ficar ali dia e noite, assim, andando pra lá, pra cá e acho que aquilo é muito bonito e muito bom. Eu me sinto bem”, relata.
No domingo, principal dia da Festa do Rosário de Paineiras, a programação já começou logo cedo. A comunidade se envolve na recepção das guardas de outras cidades, que nesta edição chegaram a 18, e partilha café da manhã, almoço e lanches coletivos ao longo do dia, acompanhando também as apresentações que acontecem até o momento da procissão pela cidade.
Na guarda da cidade de Paineiras, quem conduziu a turma durante as apresentações foi o capitão Carlito Teodoro. Ele também produz as músicas e faz os versos para os dançantes: “Este é um caminho que a gente caminha sem ver. A gente é escolhido pela Nossa Senhora. Ela vê que a gente tem aquela capacidade e, no meio de tantos, a gente é escolhido. E é um dom que vem de Deus, que pôs pra mim e pra gente. Eu tô aqui no lugar do outro capitão, mas Nossa Senhora viu que ele podia confiar essa guarda em mim até ele voltar”, ele conta.
A festa termina com uma missa após a procissão e o arreamento dos mastros. É o encerramento de um longo processo que conta com a participação de grande parte da população. Aldenice explica: “Toda a comunidade é envolvida nisso. Desde a recepção das guardas, a oferta do almoço, do café. Se não fosse o coração bom que a comunidade tem, a gente não ia conseguir dar tanta comida pra todo mundo. Eu acho que é um momento de renovação, de partilha. É um momento de amor mesmo, de fé, de devoção. Eu acho que mostra isso, a união da comunidade como um todo”.
Texto originalmente publicado no Piracema, número 20.
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Imagem destacada: Fabiano Lana/Guaicuy
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