Rayssa: Meu nome é Rayssa Aparecida Silva Lima. Eu sou do povo Kaxixó e resido na aldeia Capão do Zezinho. Minha origem é de duas etnias: meu pai é da etnia Xakriabá e minha mãe é da etnia Kaxixó. Eu sempre vivi aqui na comunidade indígena Kaxixó.
Sempre fui participativa. Estive presente durante a formação do Plano de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PGTA) e, desde criança, eu já estava envolvida na luta. Estudei aqui na escola do primeiro até o nono ano e depois estudei em Ibitira, do primeiro ao terceiro. Lá eu passei por muitas coisas. Eu sofri muito lá porque as crianças me faziam um pouco de bullying. Mas minha mãe me obrigava também a resistir e a mostrar minha cultura.
Hoje, eu sou quem eu sou por conta dessa resistência que minha mãe me passou. Eu tinha muita vergonha de expressar o meu povo nessa idade, por causa do preconceito do pessoal de Ibitira. Mas pela resistência da minha mãe e pelo que ela me fez ser hoje, eu sou quem eu sou. Com muita garra e muita dor.
Eu fui mãe com 17 anos de idade, na época da pandemia. Hoje, minha filha já tem quatro anos de idade. A gente mora aqui no território, eu trabalho no território como professora de jogos indígenas e de relações interculturais. Atualmente, curso enfermagem, e estou no sétimo período na faculdade de Bom Despacho da UNA.
Rayssa: Crescer no território Kaxixó foi essencial, porque foi onde eu tive a presença da minha cultura e das minhas raízes. Eu tinha uma ligação muito forte com o Rio [Pará], porque a gente sempre estava lá, na minha infância principalmente. A gente tinha os movimentos culturais, a gente tinha a pesca envolvida na percepção de vida. E hoje não é tanto por causa das situações.
Viver aqui, tanto antes quanto agora, também é uma questão de extrema segurança. É um lugar mais isolado, a comunidade é conjunta, então a gente tem segurança. É um ambiente perfeito, porque você tem contato com a natureza. E é o que eu quero para minha filha também: eu quero que ela cresça aqui, assim como eu tive essa oportunidade. O território e a cultura me transformam.

Festival do Pequi do Povo Kaxixó. Imagem de Paulo Marques/Guaicuy
Rayssa: Acredito que o papel da juventude na comunidade seja dar uma força a mais na luta. A gente teve a fase dos antigos, dos nossos antepassados. Como meu avô mesmo, Pedro Alves, que estava na luta, que teve conquistas, teve o reconhecimento do povo Kaxixó, teve a formação do PGTA, teve a delimitação em que eles determinaram até onde as nossas terras iam.
Agora, para mim, a juventude tem que entrar para implementar com mais força, porque acaba que a luta é muito cansativa. Tem uma cobrança extrema do que você tem que fazer, é uma dedicação muito alta que você tem que dar e, às vezes, as pessoas não conseguem manter porque trabalham e têm outros planos pra vida. Eu acredito que a juventude vem com isso, com uma força a mais, com um gás a mais, para entrar na luta e fazer a diferença. É uma coisa que está sendo esquecida pelos mais velhos, pelos adultos, e a juventude pode entrar, pode criar novas formas de intervir na situação e pode acabar resolvendo a situação com mais força, com mais determinação.
Também acredito que a juventude dentro do território é importante para manter a nossa cultura. Porque sem a juventude para pegar o conhecimento e repassar depois para os filhos e para os mais novos, a cultura acaba. A gente tem essa responsabilidade de colher ensinamentos, de colher o profundo da cultura, da história do Kaxixó.
É importante pra gente manter a cultura, nunca deixar ela morrer. A cultura tem que ser vivida todos os dias e sempre, porque, se não, ela se perde e se perde a identidade. Se perde tudo.
Essa cultura é ensinada na escola e fora da escola. Dentro da escola, tem todo o momento curricular, diferente das outras [escolas], tem cultura indígena e várias outras coisas que já são passadas para as crianças desde o prézinho, que é do primeiro ano do ensino fundamental.
Rayssa: É a questão da demarcação das terras. Ela é essencial porque a gente, hoje em dia, perdeu a maior parte do Cerrado que eu conhecia. A gente tinha muita mata e hoje já não tem tanto Cerrado. Eu vejo que, gradativamente, fazendeiros destroem o Cerrado em volta do território para por plantação. Ano passado teve uma grande mudança até ali perto do Rio. A gente faz caminhada e vê.
O território demarcado seria essencial para que essas coisas parassem, para que a gente recuperasse tanto o Cerrado quanto os animais.
Estive em Brasília no Acampamento Terra Livre (ATL) e falei que o que mais me preocupa é que eu tive a oportunidade de conhecer a nossa cultura sendo vivenciada na beira do Rio, igual era antigamente. Era nossa tradição. Eu tive o prazer de vivenciar, de ir para o Cerrado. E agora a minha filha, que já tem quatro anos de idade, não está conseguindo vivenciar as coisas que eu vivenciei devido às dificuldades que são impostas para a gente pelos fazendeiros e latifundiários.
O que me preocupa é essa passagem de cultura. A juventude vai ter que passar para os seus filhos, especialmente pela questão da limitação dos acessos que a gente tinha antes e hoje em dia já não tem mais. E já não pode ter mais, por causa dessas coisas que vêm acontecendo com a comunidade. Que é um absurdo, né? A gente deveria ter o nosso território demarcado, pra gente ter nossa tradição e pra gente cultuar os nossos ritos.
Rayssa: Sonho com as nossas terras demarcadas pra gente poder cuidar do Cerrado novamente. Pra gente ter onde morar, porque com o território não sendo demarcado, pra gente construir casa aqui dentro da comunidade, temos que comprar terreno com fazendeiros nas proximidades. É um absurdo você estar dentro de uma comunidade indígena, as pessoas da comunidade indígena trabalharem pra esse fazendeiro, e, mesmo assim, você ter que comprar terras por um valor bem considerável, pagando para o fazendeiro por terras dentro da nossa aldeia. Eu acho uma exploração gigantesca.
O meu sonho é ter essas nossas terras. Para a gente construir as nossas residências, para a gente ter os nossos rituais de forma mais segura, para a gente fazer a recuperação do nosso Cerrado, para a gente recuperar novamente os animais que eram mais abundantes e hoje já não são tantos, pela questão do desmatamento. É a gente recuperar novamente os peixes dos nossos rios, porque é algo muito sagrado, e também a gente ter de volta as nossas nascentes.
Eu moro perto do Córrego, aqui debaixo da casa da minha avó tem um. Quando está na época de chuva, é a coisa mais maravilhosa que tem, você escutar o barulho do Córrego. Eu escutava antes, quando eu era nova, tinha água correndo. Era muita água que corria, e hoje em dia já não tem tanto, por causa da plantação de eucalipto que acaba atrapalhando e secando as águas.
Meu sonho é ver novamente o nosso redor reflorestado, para que a gente tenha novamente as nossas riquezas cuidadas pelo povo Kaxixó. Que a espiritualidade também nos guie para isso, porque é um caminho difícil. Meu sonho é que isso seja reconquistado para as gerações futuras, como a da minha filha e dos novos Kaxixó. Que eles tenham essa presença da cultura dentro da mata, dentro do território sagrado e que as vivências sejam continuadas.

Ritual de Passagem – Kaxixó. Foto de Daniela Paoliello/Guaicuy
Rayssa: Que elas não desanimem. É muito difícil ser da juventude, tanto pela questão de tentar inovar as coisas, quanto por aprender os saberes de uma forma tradicional. Que todo mundo mantenha a resistência, porque dar continuidade a uma cultura realmente é uma tarefa difícil. Lutar pelos nossos direitos é uma tarefa difícil, muito árdua, muito cansativa. Mas a gente não pode desistir dos nossos direitos e deixar com que a luta dos nossos ancestrais, que os nossos antepassados trilharam, seja desperdiçada. Que a gente dê continuidade e faça valer a pena essa luta.
Rayssa: Eu gostaria que as pessoas de fora soubessem que o Kaxixó está aqui na região. O Kaxixó resiste, o Kaxixó vai resistir até conseguir o que a gente tem de direito, que é o nosso território. Gostaria que eles se abrissem um pouco pra conhecer mais a cultura do Kaxixó. Não superficialmente, mas entender a história que o Kaxixó teve aqui. Isso para que as pessoas tenham conhecimento que não só o Kaxixó, mas várias outras etnias e aldeias buscam muitos recursos iguais ao nosso, que é o território, a nossa água de volta, os animais livres no Cerrado e a recuperação de muitas árvores do Cerrado.
Esse bem não é voltado só pra gente, é voltado tanto para eles quanto para os nossos futuros filhos. Que eles tenham esse reconhecimento para que a luta não seja só uma luta indígena, porque a luta da vida é contínua. Porque a gente não vai conseguir viver daqui uns anos pela questão do desmatamento.
Essa luta não é só nossa, ela também é deles. Porque sem a preservação do meio ambiente, do nosso bioma Cerrado, sem a preservação do nosso rio, as pessoas não vão ter o básico para a sobrevivência, que são o oxigênio e a água .
Que elas tenham esse conhecimento para que a causa indígena não seja apenas da gente. Porque a causa indígena, a história indígena e as necessidades indígenas não são só indígenas. Elas também são das pessoas das proximidades das aldeias e das cidades, porque essa luta vai muito além do território. Essa luta vai além da vida, porque se você não der continuidade, tudo vai acabar aqui e agora.
A gente está bem no extremo do aquecimento global e de várias outras intercorrências naturais, a Terra já está pedindo socorro e ajuda. Só que ninguém está escutando. As pessoas deveriam abrir tanto o coração quanto a mente para ter um conhecimento mais harmonioso e também mais histórico.
Uma luta conjunta e contínua de todos nós, para que a gente tenha os nossos direitos, não só no papel, mas também na vida real, e para que a gente tenha essa continuidade da vida.
Uma das anciãs do Povo Kaxixó faleceu em 31 de março. Josina Maria da Silva tinha 101 anos. O Guaicuy faz votos para que a juventude Kaxixó siga carregando o legado ancestral deixado por seus anciãos e para que Rayssa e tantos outros continuem trilhando os passos de Dona Josina.
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