O casal formado por Ana Carolina Cordeiro da Cruz e Vanilton Campos Soares sofreu com o rompimento da barragem da Vale. O sonho de um comércio próprio foi adiado em 2019 e os dois tiveram que voltar a trabalhar na fazenda.
Agora, anos depois, eles estão montando novamente um bar e mercearia no Recanto do Funil, comunidade rural de Pompéu, às margens da represa de Retiro Baixo. Carol e Vaninho, como são conhecidos, querem contribuir para a economia local e fortalecer os laços comunitários, ajudando na reconstrução do Funil. Eles e seus filhos nos receberam para uma conversa numa tarde de sexta-feira.
Guaicuy: Quais foram os caminhos da vida que trouxeram vocês aqui?
Vaninho: Ela morava na fazenda, perto da usina [de Retiro Baixo]. O pai dela tinha uma fazenda alugada lá, chamada Capão do Retiro. Ele trabalhava na fazenda, tirava leite, essas coisas. Eu vim para ajudar e conheci ela, né?
Depois, a gente foi morar junto, e montamos um barzinho ali, numa barraca de lona. Aí veio esse negócio da Vale, que estourou, e atrapalhou muito o movimento. Caiu o movimento. Eu estava começando, meu plano era comprar o lote ali e fazer um mercadinho. Mas não deu certo, a gente acabou saindo, teve que sair de lá e voltar para a fazenda de novo.
Guaicuy: Vocês lembram como foi a época do rompimento?
Carol: Bom, foi tudo muito chocante, né? Todo mundo assustou muito. Muita gente falando que ia estourar tudo aí para baixo, que não ia sobrar nenhum peixe. Um monte de gente falando que era para gente sair daqui, que ia estourar a represa, que não ia suportar, porque era muita lama, era muito muito rejeito. A gente ouvia a sirene lá da casa da minha avó, os cavalos e os bichos escapuliram. Foi uma loucura. E o rio encheu muito.
Guaicuy: O que mudou aqui depois de 2019?
Carol: Vinham muitos pescadores, vinha gente demais. Na casa da minha vó, é só pedra. Vinha gente pescar, nadar. Pessoal falava que era uma praia. Aí, gradativamente, pararam de ir. Fracassou bastante, o pessoal comprava bastante. Parava e falava assim: “hoje nós queremos tanto de galinha, tanto de ovo e tanto de queijo”. E isso acabou.
Guaicuy: E agora, vocês voltaram a abrir um comércio aqui. Quais são os planos?
Vaninho: Reacender o comércio para chamar chamar a atenção de quem tiver chegando. Tem pessoas morando aqui, vivendo aqui. Muita gente agradece. É um ponto de apoio. Às vezes, acaba o gás da pessoa, aí ela tem que se deslocar até lá na cidade comprar um gás. É difícil para trazer, e eu tenho gás aqui pra vender. Em preço acessível, não é extorquindo ninguém. Aí o pessoal vem mais animado. Na hora que chega, vê o mercadinho, vê um barzinho aí. Eu quero transformar em um mercadinho ainda, mas por enquanto ainda é um barzinho. Aí vê que tem um movimento. Isso ajuda todo mundo, ajuda a comunidade toda. Porque vira um ponto de referência. Às vezes, a pessoa vem comprar um lote, vem olhar uma terra aí, tem parente aí, e se pergunta se tem algum lugar pra ir à noite. Um lazer, um petisquinho…
Guaicuy: Quais têm sido as dificuldades?
Vaninho: Tem que melhorar muita coisa. A gente não consegue financeiramente, não tem capital pra isso. Eu estou começando ainda, o que eu ganho aqui, eu retorno pra dentro de novo. Se eu ganhar cem reais, eu compro a mercadoria e jogo aí dentro de novo. Está sendo assim.
Se eu conseguir essa essa linha de crédito do Anexo 1.1, vou investir na melhoria no comércio. Eu vou montar a borracharia. É caro. Tudo da borracharia é caro. Eu quero montar uma borracharia para atender o pessoal e finalizar o comércio. Por enquanto, eu não tenho nem prateleira para colocar tudo. Quero comprar mais mercadoria, que é caro, e repor estoque. Tem que comprar mercadoria, prateleira, tem que comprar as coisas de borracharia. É isso aí que eu preciso.
Guaicuy: Como vocês se imaginam daqui a cinco anos?
Vaninho: Meu sonho é criar a minha família aqui. É tranquilo, sossegado, gosto daqui. Daqui a cinco anos, vai ter muito movimento. Muita família que quer vir morar aqui. Vai ser uma comunidade unida. Tem várias comunidades aqui. Tem o Laranjo, tem o Funil, tem o pessoal do Seriema, do Sucupira, Balneário… Tem muita gente que tá junto aqui. Daqui a cinco anos, se Deus quiser, se eu puder estar aqui ainda, eu quero ter um estabelecimento bacana para atender todo mundo. Mais sortido, com mais mercadoria, com mais opção de atender bem o cliente.
Carol: É muita coisa, mas daqui a cinco anos a gente vai devargazinho.
Texto originalmente publicado no Piracema, número 20.
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Imagem destacada: Jhen Loure/Guaicuy
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