Principal celebração religiosa e cultural do distrito reúne milhares de fiéis e visitantes, enquanto moradores apontam custos e obstáculos para ocupar espaços de comercialização durante os festejos
Há mais de 300 anos, a Festa de Nossa Senhora da Conceição da Lapa reúne fé, tradição e encontro em Antônio Pereira. Para Ivone Zacarias, garimpeira tradicional e integrante da Comissão de Pessoas Atingidas, acompanhar a procissão da padroeira sempre fez parte dessa história. Neste ano, porém, ela decidiu não participar dos principais dias da celebração. O motivo não foi a falta de devoção, mas o desgosto em relação à falta de barracas de produtores locais, um dos principais atrativos culturais da festa.

Dona Ivone conta que ficou aborrecida depois de receber relatos sobre os valores cobrados para a instalação de barracas durante a festa. “Eu queria tanto acompanhar a procissão. Meu menino até falou: ‘Uai, mãe, você já separou a roupa da senhora para ir’. Eu falei: ‘Vou não, meu filho’”, conta. Dias depois, Dona Ivone pretendia voltar à Gruta da Lapa para rezar e agradecer à santa. A decisão da moradora ajuda a revelar uma insatisfação que acompanhou a edição deste ano da Festa de Nossa Senhora da Lapa: moradores questionam os custos para comercializar durante o evento e a redução da presença de barraqueiros, especialmente da própria comunidade, em uma celebração historicamente ligada à cultura de Antônio Pereira.
Segundo Dona Ivone, moradores teriam pago R$ 1.200 para instalar barracas, enquanto os valores para comerciantes de outras localidades teriam chegado a R$ 1.500 ou R$ 1.600.
“Esse ano não teve o tanto de barraqueiro igual sempre tinha, não veio muita barraca”, afirma. Para ela, o cenário contrasta com a festa de outros tempos. “Antigamente aqui não existia isso não. Tinha barraca desde o asfalto até lá em cima.”
O Instituto Guaicuy procurou a Secretaria de Desenvolvimento Social de Ouro Preto, que informou que ainda está reunindo informações sobre o evento para responder aos questionamentos enviados, entre eles os custos cobrados dos comerciantes, os critérios adotados e a participação de comerciantes de Antônio Pereira na festa. As informações desta matéria serão atualizadas mediante resposta da Secretaria.
O custo de estar na festa
A preocupação com os valores cobrados para a instalação das barracas de produtores locais também aparece entre moradores que participaram da Festa da Lapa. João José dos Santos, morador e integrante da Comissão de Pessoas Atingidas de Antônio Pereira, conta que se surpreendeu com os preços de alguns produtos vendidos durante o evento.
“Eu fui comprar uma barra de doce, a mulher pediu R$ 15. Isso é um absurdo”, relata. Para Seu João, os preços praticados estão relacionados aos custos assumidos pelos comerciantes para trabalhar durante a festa. “Eu pago R$ 1.200 em uma barraca, eu não vendo R$ 700, aí eu tenho que tirar do bolso para dar o resto.”
A avaliação de Seu João aponta para outro possível efeito dos valores cobrados para a instalação das barracas. Além de dificultar a participação de produtores locais, custos elevados podem ser incorporados aos preços dos produtos vendidos durante o evento, afetando também o consumo de produtos típicos por moradores e romeiros que participam da festa.

Os relatos ampliam a discussão sobre o impacto econômico da festa para Antônio Pereira, tanto para os moradores que buscam comercializar durante o evento quanto para aqueles que participam das celebrações. Um momento de festa capaz de circular a economia local e valorizar a cultura do distrito se torna algo inacessível para a própria população.
Uma tradição que atravessa gerações
A discussão sobre a participação dos comerciantes locais na Festa da Lapa ganha outra dimensão pelo lugar que a celebração ocupa na história de Antônio Pereira. A Festa de Nossa Senhora da Conceição da Lapa faz parte de uma tradição tricentenária do distrito. A devoção teve início em 1722, quase no mesmo período de fundação de Antônio Pereira, a partir dos relatos de aparições de Nossa Senhora, em sua face de devoção de Conceição da Lapa, a crianças em uma gruta localizada no alto da comunidade.

Desde então, a Gruta da Lapa tornou-se lugar de peregrinação e devoção. Todos os anos, durante a primeira quinzena de agosto, o distrito recebe fiéis e romeiros de Antônio Pereira e de outras cidades para o Jubileu e as celebrações em homenagem à padroeira. A tradição atravessa gerações e reúne procissões, caminhadas, manifestações de fé e encontros que fazem parte da história da comunidade.
É justamente por essa relação histórica que Dona Ivone demonstra preocupação com as mudanças que percebe na festa ao longo dos últimos anos. Para a moradora, os custos para a instalação das barracas e a redução da participação de comerciantes locais interferem em uma prática que também faz parte da tradição da celebração. “Estão acabando com a tradição nossa”, lamenta.
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