“Recuperar o Velhas significa, primeiro e sobretudo, repensar a relação da metrópole com suas águas”. Essa frase, presente no site da Meta 2034, lançada em novembro de 2025 em Santa Luzia, sintetiza o ponto mais importante do esforço que vem sendo feito e que precisa de comprometimento coletivo para melhorar a qualidade e a quantidade de água do Rio das Velhas até o ano de 2034. E para que o peixe volte ao Velhas.
Acesse o site da Meta 2034
A meta, idealizada pelo professor Apolo Heringer Lisboa, fundador do Projeto Manuelzão, foca em quatro principais dimensões:
É um movimento que precisa do envolvimento do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas, seus subcomitês, gestores públicos e pesquisadores e também da sociedade civil. Somente com a participação articulada de diferentes atores sociais é possível que seus objetivos sejam alcançados, assim como aconteceu na Meta 2010 e na Meta 2014.
Hoje, a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) concentra cerca de 85% da população, 85% do PIB e 85% da poluição da Bacia do Rio das Velhas. Por isso, a intenção é que as águas do rio nessa área saiam da Classe 4, que é o enquadramento de rio considerado morto, e cheguem no mínimo à Classe 2, na qual é permitido pescar, irrigar alimentos, fazer mergulhos, natação e abastecer para consumo humano após tratamento convencional.
A reclassificação das águas na região metropolitana, no trecho de cerca de 60 km entre Honório Bicalho, distrito de Nova Lima onde fica a Estação de Tratamento de Água (ETA) Bela Fama, e a foz do Ribeirão da Mata, entre Vespasiano e Santa Luzia, é um primeiro passo. Com isso, é possível vislumbrar os trechos menos poluídos chegando à Classe 1 e salvarmos o Rio das Velhas em toda a sua biodiversidade, incluindo a população ribeirinha que precisa do Rio para a sobrevivência.
Apolo explica que se a qualidade do trecho do epicentro da Mata aumenta, a mudança é sistêmica: “Vai melhorar lá embaixo, vai melhorar para cima, porque o peixe vai subindo e, se o peixe sobe para além da região metropolitana, ele entra por todos os afluentes e a população ribeirinha, pobre, vai poder pescar, nadar, pegar água para molhar a horta…”.
E além da qualidade, é imprescindível pensar na questão do volume de água do Rio. Segundo Apolo, até 1999 havia uma tendência de aumento das vazões médias mensais do Velhas. No entanto, a tendência se inverteu a partir dos anos 2000 para uma redução acentuada, o que coincide com o aumento da mineração na região.
Segundo Apolo, as mineradoras precisam aprofundar a escavação em muitos metros. Mas como não é possível minerar com caminhões e tratores dentro dos aquíferos, elas bombeiam a água para fora, esvaziando os lençóis freáticos e provocando seca subterrânea. “Isso influi na umidade do ar, em incêndio florestal. Elas estão destruindo os aquíferos. Depois que elas vão embora, a água não volta. Elas estão quebrando a caixa d’água.” Ele ainda destaca que, além das consequências ambientais, isso também traz impactos econômicos que são arcados pela população, como aumento das tarifas de água, esgoto e energia elétrica.
Como a recuperação dos volumes é uma prioridade, é necessário preservar as serras d’água e aquíferos do Quadrilátero Hidro-ferrífero, como Serra do Cipó-Paraúna, Serra do Cabral e Veredas, e outras áreas úmidas como pântanos, brejos e lagoas. Isso é possível quando se coloca o território hidrográfico como base do planejamento das atividades urbanas e produções econômicas, como defendem o Projeto Manuelzão e o Instituto Guaicuy.
As experiências anteriores de atuação na recuperação do Rio das Velhas mostram que a definição de metas auxilia muito a vencer a lentidão e falta de foco da gestão pública em relação ao meio ambiente. Por isso, será necessário estabelecer onde é preciso chegar em termos de coleta e tratamento de esgoto, busca ativa e fiscalização de emissões ilegais, entre outras ações.
No caso da extração de minérios, é mais do que urgente melhorar a prevenção a rompimentos e vazamentos de barragens de mineração — o que pode simplesmente matar o rio, afetar no abastecimento de água na RMBH e levar lama até o São Francisco —, além de se desenvolver de uma forma mais sustentável e, consequentemente, mais limitada. “A mineração não pode continuar do jeito que é porque ela desindustrializa o Brasil. Ela acentua o caráter neocolonial da política econômica e compromete o meio ambiente”, afirma Apolo.
Já a dimensão socioambiental da Meta 2034 pode proporcionar que suas ações sejam inseridas em diversos programas do governo federal e de incentivos fiscais como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O prazo de 2034 também está alinhado ao Marco Legal do Saneamento, que indica que todas as esferas de Governo (Federal, Estadual e Municipal), órgãos da Administração Pública e a Sociedade Civil devem unir esforços para universalizar a coleta e o tratamento de esgoto e a oferta de água potável para toda a população do Brasil até 2033. Mas isso só é viável com o comprometimento de parlamentares, representantes do poder executivo, movimentos sociais e empresas.
“A Meta 2034 é tudo isso. É uma visão de mundo, é uma visão transdisciplinar, é uma visão que mistura universidade, com pesquisa, com pescador, com água, com bacia hidrográfica. Tá no mundo, tá com o povo. É válida para todo o planeta, porque o planeta é uma bacia hidrográfica”, sintetiza Apolo.
O Guaicuy, como sempre, está junto do Projeto Manuelzão e empenhado com a Meta 2034. Faça parte dessa transformação também! Acesse o site para ler o manifesto e saber como você pode contribuir como cidadão, município, empresa ou instituição:
Imagem destacada: Leo Boi/CBH Velhas
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