Instituto Guaicuy

Saúde e mineração: o diagnóstico que falta nos dados oficiais sobra nos corpos

3 de julho, 2026, por Comunicação Guaicuy

Por Isabela Caiafa, analista do escritório de Mitigação do Instituto Guaicuy

Entre os dias 26 e 29 de maio, levamos a experiência da Assessoria Técnica Independente (ATI) ao VII Congresso Internacional de Riscos, na Universidade de Coimbra. Mais que debater os riscos globais e os caminhos para a sustentabilidade, buscamos  demarcar uma realidade urgente e frequentemente invisibilizada: como os modelos de desenvolvimento predatórios afetam a saúde coletiva das populações atingidas pela mineração profunda e continuamente. Isso dialoga diretamente com as discussões globais sobre medicina de catástrofe (ou desastres), alterações climáticas e vulnerabilidade social.

Em nossa apresentação, destacamos o acompanhamento dos Estudos de Avaliação de Risco à Saúde Humana e Risco Ecológico (ERSHRE) na Bacia do Rio Paraopeba. Esses estudos são fundamentais para levantar os riscos latentes nos territórios, mas também para desenhar estratégias concretas de reparação. Contudo, fizemos uma crítica necessária à morosidade desses processos. A lentidão institucional permite que as comunidades sigam expostas a contaminantes e sem respostas definitivas. A partir dos diálogos proporcionados pelo evento, é possível afirmar que desastres socioambientais exigem uma transição de modelos reativos para abordagens preditivas, mas a demora na entrega de diagnósticos oficiais impede que aconteça na prática.

Diante da urgência das comunidades e de um vácuo estatal, as assessorias assumiram o papel de organizar pesquisas e estudos de diversas áreas do conhecimento, incluindo os de saúde. Os dados primários (gerados diretamente com as pessoas atingidas) revelaram uma realidade que os dados secundários (informações que já foram coletadas, organizadas e publicadas por outros pesquisadores ou instituições, como os bancos de dados da saúde) costumam mascarar por meio da subnotificação. Enquanto as estatísticas governamentais não conseguem traduzir os danos causados pelo rompimento da barragem da Vale, as pesquisas nos territórios dão nome aos danos cotidianos, tocando diretamente no painel de vulnerabilidade social e desigualdades sanitárias debatido em Coimbra. Afinal, o risco à saúde não é apenas biológico, mas fortemente condicionado por fatores socioeconômicos e pela distribuição assimétrica dos danos ambientais.

Quando cruzamos dados dos diversos estudos e documentos produzidos nesse processo, a dimensão do desastre-crime se revela em sua totalidade. Inicialmente, os relatórios decorrentes da Fase 1 dos ERSHRE cumprem o papel de estruturar a escuta qualificada e o diálogo, registrando as percepções diárias das comunidades sobre os  riscos aos quais estão expostas: o uso do rio e da água, o contato com o solo, a poeira da lama, entre outros. Longe de serem meros temores, essas percepções encontram amparo material nas perícias realizadas pelo Comitê Técnico-Científico da Universidade Federal de Minas Gerais (CTC/UFMG), que comprovam a presença de contaminantes no ambiente. Os resultados das perícias  foram publicizados na audiência de contextualização, em novembro de 2025. 

Para além do risco projetado, a Pesquisa em Saúde conduzida pelo Instituto Guaicuy, realiza a análise de situação de saúde da população atingida e identifica uma série de situações de surgimento e agravamentos de doenças nos territórios, o que contrapõe alguns dados secundários, possivelmente subnotificados. É por meio dessa pesquisa que a escuta das pessoas atingidas revela a complexidade e a profundidade dos impactos do rompimento. Há destaque para os danos à saúde mental, enraizados nas incertezas, na estigmatização, no luto pela perda do território original e das consequências disso, que se somam a adoecimentos contínuos, como as dermatites causadas pelo contato com a água do rio ou da represa. Para comunidades rurais, pesqueiras e tradicionais, a morte do rio significa a morte da identidade. Esse adoecimento atravessa a vida comunitária de forma sistêmica, uma vez que o comprometimento da saúde física e mental afeta diretamente a capacidade produtiva das pessoas, gerando impactos socioeconômicos, além da perda de pertencimento e relatos de profunda angústia por não conseguir prover o sustento da família. É exatamente essa fragilização estrutural dos vínculos familiares e comunitários, impulsionada pelas alterações do modo de vida, que culmina no aumento perceptível da violência doméstica e no aumento do consumo de álcool e outras drogas.

Esses determinantes de um tecido social fragilizado se conectam diretamente com o paradigma da Saúde Única (One Health), debatido no Congresso. As discussões internacionais reiteram o que as comunidades atingidas pela mineração vivenciam todos os dias: que a degradação dos ecossistemas e a contaminação dos recursos hídricos ultrapassam barreiras ecológicas e geram riscos sanitários. Torna-se, portanto, complexo pensar na recuperação da saúde das pessoas sem assegurar, simultaneamente, o equilíbrio ecotoxicológico do ambiente em que elas vivem. O adoecimento do rio e do território reflete, inevitavelmente, no adoecimento das pessoas.

Diante desse cenário de adoecimento transversal evidencia uma lacuna crítica: o serviço público de saúde, em sua estrutura convencional, não está preparado para lidar com a complexidade de desastres socioambientais dessa magnitude. É a partir do reconhecimento dessa desassistência sistêmica que ganha força uma articulação fundamental no contexto atual, que é a construção de uma Política Estadual voltada especificamente para a saúde das pessoas atingidas pela mineração em Minas Gerais. O avanço dessa política é crucial por ir além da resposta emergencial aos cenários de rompimentos de barragens, abarcando também os impactos crônicos e cotidianos inerentes à atividade minerária. Trata-se de instituir fluxos e protocolos para que o sistema público saiba identificar e acolher essas demandas específicas, garantindo capacitação e a instituição de equipes multidisciplinares nos territórios afetados.

Ocupar as mesas do VII Congresso Internacional de Riscos com esses relatos foi essencial para reafirmar que a governança de riscos e a adaptação climática não podem ser construídas de cima para baixo. O diagnóstico real de um território não está restrito aos dados secundários, mas é produzido na escuta ativa, na pesquisa científica independente construída ao lado das comunidades e na convergência dos saberes dos territórios com o debate global. Somente ao garantir visibilidade a essas realidades é que garantiremos que o direito à saúde e ao ambiente seguro seja, finalmente, um pilar inegociável da reparação integral e da justiça socioambiental.

Isabela Caiafa é analista sênior no Instituto Guaicuy, psicóloga, especialista em Intervenções Psicossociais no Contexto de Políticas Públicas e especialista em Gestão de Programas e Projetos Sociais.

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