As perícias do Comitê Técnico Científico da Universidade Federal de Minas Gerais (CTC/UFMG) identificaram concentrações de metais e metaloides acima dos limites estabelecidos pela legislação nas águas superficiais e sedimentos da Bacia do Rio Paraopeba. Os resultados reforçam a necessidade de manter o monitoramento ambiental depois do rompimento da barragem da Vale, e de ampliar as pesquisas sobre os impactos socioambientais na região.
As informações são dos Subprojetos 18 e 21 das perícias do CTC/UFMG. A partir delas, o Instituto Guaicuy elabora as Fichas Populares das Perícias, que podem ser acessadas aqui.
Entre agosto de 2021 e junho de 2022, foram realizadas onze campanhas de monitoramento da água superficial e duas campanhas de coleta de sedimentos – uma no período de seca e outra no período chuvoso.
Ao todo, foram analisadas 484 amostras de água superficial e 88 amostras de sedimentos, coletadas em 44 pontos ao longo da Bacia do Paraopeba, em locais acima e abaixo do local onde a barragem da Vale rompeu em 2019.
Os estudos identificaram concentrações acima dos valores máximos permitidos pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), principalmente para alumínio (Al), ferro dissolvido (Fe), manganês (Mn) e chumbo (Pb). As concentrações de metais, elementos terras raras e turbidez foram, em geral, mais elevadas durante o período chuvoso.
O Ribeirão Ferro-Carvão (afluente do Rio Paraopeba) apresentou as maiores concentrações de metais e de valores atípicos. Já os pontos do Paraopeba localizados abaixo da confluência sofreram influência direta dos elementos transportados pelo ribeirão.
Entre os principais resultados, o estudo aponta que o alumínio ultrapassou o valor máximo permitido em 100% das amostras, e o manganês em 90%. Também houve violações para arsênio (1,2%), mercúrio (7,2%) e chumbo (21,3%), com as maiores concentrações registradas abaixo da confluência do Ribeirão Ferro-Carvão.
Na análise dos sedimentos, os elementos que mais ultrapassaram os valores orientadores pela Resolução do CONAMA foram arsênio (As), cromo (Cr), cobre (Cu) e níquel (Ni).
O arsênio esteve acima do nível 1 da legislação em 70% das amostras nas duas campanhas realizadas. Além disso, dois pontos ultrapassaram o nível 2, que indica maior probabilidade de efeitos nocivos aos organismos expostos. Mais de 56% das amostras de cromo e 60% das amostras de níquel também apresentaram concentrações acima do nível 1 estabelecido pela legislação.
O monitoramento do CTC/UFMG permitiu avaliar a qualidade da água e dos sedimentos das áreas impactadas pelo rompimento da barragem da Vale. Os professores responsáveis pelas perícias também recomendam novas pesquisas para identificar a contribuição de diferentes fontes de poluentes e buscar formas de reduzir os impactos observados no sistema hídrico da região.
Monica Campos, bióloga responsável pelas análises do Instituto Guaicuy, chama atenção para os resultados encontrados no reservatório da Usina Hidrelétrica de Retiro Baixo, onde foram registradas concentrações elevadas de elementos como alumínio, fósforo, arsênio, cádmio, cromo, chumbo, níquel, zinco e bário – tanto na água quanto nos sedimentos.
Segundo a bióloga, os resultados demonstram a importância do reservatório como uma barreira para a deposição dos rejeitos. Mas posteriormente, esses rejeitos podem se deslocar para além da usina, em direção à Região 5. Porém, a região do reservatório de de Três Marias não foi incluída nas perícias ate hoje realizadas.
A análise também destaca que, embora alguns elementos possam estar relacionados a fatores naturais, geológicos ou a fontes de poluição pré-existentes, todos os elementos analisados apresentaram concentrações superiores às registradas antes do desastre-crime. Um dos exemplos citados é o cádmio (Cd), cuja concentração na quinta campanha de coleta foi 16 vezes maior que a observada no período anterior ao rompimento da barragem da Vale.
Para Mônica, os resultados não permitem descartar uma provável contribuição dos rejeitos da barragem para o aumento das concentrações de metais e metaloides na área analisada. Além disso, as concentrações de alguns elementos encontrados nos sedimentos apontam risco de efeitos prejudiciais aos organismos aquáticos de acordo com os valores orientadores da legislação.
Acesse todas as Fichas Populares das Perícias do CTC/UFMG aqui
Imagem: acervo Guaicuy.
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